Jazz tristonho, vícios e outras coisas

Acordei
e lá estava eu.

Todo o dia é igual ao anterior.

A mesma cama,
a mesma manta,
o mesmo ventilador,
o mesmo cenário entristecedor.

E lá estava eu,
provando a terceira idade com antecipação,
bebendo sem pudor,
na ponte entre o passado e o futuro.

Um telefone em minha alma toca incessantemente,
mas não atendo,
tenho medo de ouvir a voz do outro lado da linha.

E não se pode escrever vinte quatro horas,
então o que fazer a não ser respirar?!.

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Black and decker

Mulheres solitárias fritam ovos com bacons no café da manhã
e algumas são tão carentes e desprovidas de um senso de razão
que seriam presas fáceis de homens como Charles Manson.

Mulheres que cozinham para asilos de idosos,
clínicas psiquiátricas
e prisões.

Elas estão por toda a parte,
sempre exaustas,
sempre impacientes como águas vivas retiradas do mar,
com seus olhos negros e vivos.

Elas são como escritores,
competitivas e desunidas,
com seus corpos impregnados de óleo
em cozinhas de meia-luz.

Elas são tão realistas que poderiam matar a si mesmas,
comendo cacos de vidros com feijão.
E há um fardo implícito em seus olhares
e há gaviões mortos nos bicos de seus seios
e nos dias quentes elas choram enquanto comem sorvetes caseiros.

Mulheres civilizadas,
sempre bebendo escondido,
comprando bebidas com seus sacos pretos
e amenizando seus martírios com doses cavalares
de vodka com água.

Mulheres
Mulheres
Mulheres.

05:30

Os galos cantam na madrugada
e pergunto-me qual o destino dos que se alimentam da ridicularidade da paixão,
ou dos que padecem por sentir tesão demais por tudo que não seja a vida.
.
Os pássaros alternam o canto com os galos
e vão com tudo em sua ludicidade natural.
.
A pastelaria está fechada,
as pracinhas vazias
e as luzes dos bares acesas,
e pergunto-me se somos desiludidos o suficiente para aprender qualquer coisa.
.
Tristeza,
angústia,
pesar,
melancolia.
.
Nunca houve tantas palavras no mundo para definir um sentimento.
.
E seguimos adiante, enredados nas minúcias do dia-a-dia,
não tão alertas ao fluxo das coisas como deveríamos,
sentados em cadeiras tristes.

Os animais quando transam não se olham nos olhos

A borboleta não sofre problemas de auto estima e nem tenta se matar.
O oceano não tem inveja de outro oceano.
Os patos não tem mente, portanto não sofrem.
Os gatos não sabem que vão morrer, por isso vivem o momento presente,
em estado de presença.
A joaninha não agride psicologicamente outra joaninha.
O urso polar não tem dogmas e nem frequenta templos.
O leão não produz literatura, porém não passa por crises existenciais.
O cachorro não lê jornais e sequer investiga o preço do feijão.
Uma barata não assassina uma mulher e nem é machista.
O ser humano, vive em negatividade.

Dormir é a religião dos depressivos

Todos os dias eu uso o sono para escapar da realidade,
mas principalmente nas segundas,
domingos
e quintas
a coisa fica realmente feia,
pois eu durmo demais.

O que seria de um depressivo sem o sono?
O sono pesado, sem sonhos.

O cobertor até o pescoço e o som refrescante do ventilador.

Chegou o tempo em que eu só rezo para continuar fazendo
minhas necessidades sozinha,
sem precisar de ajuda para isso,
porque a idade está chegando e nunca se sabe
se precisaremos de alguém para auxiliar.

Chegou o tempo em que a inércia tornou-se uma religião e a cama o meu templo.

Um poeta é tão cansado quanto um pedreiro

Existem horários que eu simplesmente não suporto.
 
Por exemplo, ás 14:00 e 15:00 da tarde.
 
Eu sento em volta da mesa do jantar e vejo a vida passar diante dos meus olhos fatigados.
 
Penso no vinho não bebido,
nos desafetos,
e a única ligação que eu recebo é da atendente eletrônica do telemarketing,
nenhuma voz humana para me confortar em vinte sete de agosto de dois mil e dezoito.
 
Nunca me esquecerei deste mês,
certamente pela irrelevância que ele apresenta,
pois estou acamada como se estivesse para morrer.

Casa 167

Ele escuta música todos os domingos e mora sozinho.
É um homem solitário e seus pais não estão mais vivos.
O som do seu rádio entra bairro adentro.

Sera que há alguém com quem ele possa contar?
Ou é um misantropo irreversível?

Sempre me pergunto o que ele faz enquanto escuta música.

Será que ele fica prostrado no sofá?
Ou arruma a casa?
Ou simplesmente canta e dança?

Ele escuta Raul Seixas, Legião Urbana e Simple Minds.

E eu me pergunto se ele encara com otimismo a solidão.

Enlouquecer para escrever

Tão nova para pedir uma aposentadoria,
mas esse é o destino das poetisas problemáticas:
o ostracismo,
o isolamento,
o acúmulo de insanidades.

Tão nova para qualquer coisa que seja dramaticamente ruim.
Tão nova para escrever poemas doentios e tristemente adoecidos.
Tão nova para ler Kaddish do Ginsberg.
Tão nova para usar sapatos rosas.
Tão nova para lamentar.
Tão nova para enlouquecer.
Tão nova para sentir a gota fria da privada bater na bunda quente.
Tão nova para admirar o suicídio perfeito.
Tão nova para escrever.
Tão nova para ser uma eremita e suportar-se dia após dia.
Tão nova para tomar remédios psiquiátricos.
Tão nova para acreditar em tarot.
Tão nova para morar sozinha,
porque nunca se sabe até onde isso vai dar.

A cidade é um alfaiate cego

Com o tempo, o casaco velho não esquenta mais.
.
A meia esgarça.
A calça jeans encolhe.
A calcinha arrebenta.
.
A roupa não cabe no verbo.
O verbo não cabe na roupa.
.
A pele fica flácida.
O nariz repleto de cravos.                                                                      Os cabelos grisalhos.
Os peitos murchos.
.
Bem de manhã, olhamos fixo para a cartografia da cidade,
tão lúcida quanto um pássaro obeso.
.
Com o tempo, nada mais intriga quanto uma samambaia
decorando a cozinha,
e a realidade desce seco como um pão severamente duro.