Um homem doente me olhava
me olhava.
Seus olhos emanavam vazio
um vazio com cheiro de esperteza.
 
Ele estava lá,
eu também.
 
Por motivos absolutamente diferentes.
 
Mas estávamos no mesmo barco.
 
E embriagados de lucidez.
 
Ele disse: ”Foi injusto te colocarem aqui”
 
Talvez fosse.
Talvez fosse.
 
Talvez não fosse.
Talvez não fosse.
 
Os remédios,
a cama contra a porta,
a inexorável dor que unia todos nós
num único lugar.
 
Os tristes fatos.
 
Um homem doente me olhava
e me dava o seu telefone,
num apelo suplicante.
 
Talvez um dia ele também estivesse fosse daquela roubada
e sua irmã pudesse ajudá-lo.
 
Mas não,
não poderia.
 
Só ele mesmo poderia se ajudar.
 
Cada um suporta seu fardo.
 
Ou não.
Ou não.
 
Essas rasteiras são fundamentais,
diziam.
Pra aprender qualquer coisa.
 
Qualquer coisa.
 
Por motivos absolutamente diferentes.

Hart crane no mar
e onde haveria eu de estar?

Cosendo quimeras numa cama
entre o quarto e a sala de estar?

Não se sabe.

Por ora, implodem-se os enigmas,
as dúvidas,
as ideias que não cabem mais.

Por ora, descobre-se que a linguagem é a escapatória,
mas o perigo é iminente.

A morte está a espreita pelo gorduroso excesso de existir.

Tantas vezes comedida.
Tantas vezes apatia.
Tantas vezes nas partidas um naco do coração enrolado num pedaço de jornal para constatar que um dia ele existiu.

Tantas vezes o céu explodindo em cores num quadro pintado por mãos bêbadas
e a loucura expiando pecados num tribunal estéril.

É poesia mal comida.
Comida mal lida.

É a iminente rasteira
e os olhos estrangulados beijando o chão
como num pacto de paz com o irreversível.

Tantas vezes vírus vivendo meia vida,
parasita de paraísos artificiais.

Tantas vezes o inconcluso
dia após dia
num jogo pueril de ser ou não ser.

Se vestidos falassem eles se lamentariam, mas vestidos não falam, então nada diriam.

O vestido pegou fogo suavemente,
o desespero escorria entre o pano.
Não houve dor,
só silêncio.
O fogo não dançou sob a pele.

As feridas do vestido estavam expostas e conversavam comigo.

Por vezes, a vontade de queimar ressurgia.

E nenhum poeta estará a salvo, meu amigo.

Nem os poetas.
Muito menos eles.
Muito menos eles.

Intrépidos viajantes

Como kesey dizia: cinema das pálpebras
A loucura morando dentro do olho e

devorando-o.
Imagens vívidas, viagens ao outro lado do mundo.

Talvez ela existisse e isso enchi-a de felicidade – dava para ouvir a saraivada de risos saborosos
das pessoas de todos os tipos vindo contar
como elas conseguem viver e se manterem sanas por aqui.

É comovente o mistério da existência,
só que as costas precisam ser fortes
pra aguentar o peso do mundo,
o peso de tudo,
e não acabar parado de bengala no meio da estrada.

 

Como iniciar incêndios

A metafísica não explica
o que as mentes fazem conosco
quando tentam fundir-se uma na outra
ao cruzar de olhos,
ao tocar de peles com fragmentos do extraordinário
que faíscam e
brilham e
queimam.

Ó, como faíscam e
brilham e
queimam
ao encontro uma da outra.

(e é possível tocar o espaço)

E nestes dias,
entre tantos outros desdias,
falta fôlego,
fôlego de vida muito sentida
fôlego de estilhaços que enlouquecem
fôlego de vida que desfalece
e renasce nos braços do outro
pra ser imortal durante algumas temporadas.

O tempo só complica.
O conceito.
O aguardo.
A paz que não se estabiliza no paliativo,
no engano da mente
que faz morada no inconsciente coletivo
Então, segura a rédea,
escuta o papel,
com ele não tem ficção
é relato intimista
conflito que se materializa em palavra.
Nas experiências vividas no solo,
ninguém estava.
Só teus olhos,
tua mente,
teu sentido capta.

E o que fazer?
Pegar a máquina de escrever e dizer,
golpear.
E Bandini ri,
Arturo Bandini ri
ao ver os pássaros voarem a cada estalada na máquina.
Ele diz que existir é marretada na psique
e ninguém nunca saberá
ninguém nunca saberá qual será a carta que tem na sua manga
ou nos bolsos da tua blusa que segura isqueiro, fumo e caneta.

Por que de vício não basta um,
tem que ter mais algum
e fazer a mente decolar
enquanto bate na máquina de escrever de noite
com medo de alguém escutar o lamento audível.
Então, que se fodam as expectativas sociais
porque quero fazer barulho e datilografar
sem frescura de perturbar.
Não seguro a letra,
nem a fala
deixo ela rolar.

Manguezal com memórias alagadas
tentativas de esconder o emerso com lodo
luz
escuro
lembranças do absurdo
nada
escurece no velho mundo.

Cerveja
que não silencia,
só acorda.
Se revolta contra o luto,
enquanto a ampulheta
marca o passo das horas.
Memória
soma de todas as discórdias
que o copo calcula os acréscimos sem hesitar.

A4
que toda grafia incorrigível
errante
marginal
grita o casamento das dualidades:
caricatura da mente,
escreve
e só
sente medo
do coração não pulsar mais.

echoes_by_t_vieira

Malabarismo linguístico?.
Não!.
Não nesta noite!
não nesta hora!.

Dividida
fragmentada.

Uma parte do corpo no assento do ônibus
te encarando pagar a passagem,

e a outra

no quarto rememorando o ensaio
de fingir não te querer.
Ensaio que só abrevia o conflito,
abafando o que foi dito e redito,
que agora o lirismo na forma de poesia
cumpre função de mertiolate,
mas só arde,
escuta: só arde.

Que nos venham palavras e versos,
mas que jamais estejam divorciadas do afeto,
pois somos a manifestação de duas almas que ainda vivem,
ainda sentem,
embora os destinatários sejam completamente diferentes.

Enviar milhares de cartas
talvez seja um joguete coerente,
porém não tema,
ainda há de enlouquecer em cima delas
e molhar o vidro das vistas.