Minha cabeça é um vaso de flores mortas

Mais uma vez choraremos enquanto folheamos revistas de decoração.
Mais uma vez comeremos e fumaremos buscando um novo seio materno.
Mais uma vez estaremos descalços e famintos,
embaixo das pontes de nossa mente.
Mais uma vez a loucura é tudo o que teremos.
Mais uma vez as nossas crises servirão para nos curar.
Mais uma vez iremos querer viver nos bosques,
assim como o Thoreau em ” Walden “.
Mais uma vez assistiremos Arte 1 e ficaremos profundamente emocionados.
Mais uma vez guardaremos as estrelas nas cumbucas.
Mais uma vez faremos sexo através das telas dos computadores.
Mais uma vez os nossos peitos vazios esperarão o sol nascer.
Mais uma vez sonharemos com a Sylvia Plath com a cabeça dentro do forno, pronta para morrer.
Mais uma vez comparemos talheres,
vasos de porcelana,
abajures
e flores artificiais.
Mais uma vez nos molharemos e nos queimaremos,
para confirmar se ainda podemos sentir.
Mais uma vez tudo nos acometerá por inteiro,
nos assaltará,
nos subtraírá,
nos rasgará
por dentro e por fora, assim como papel sulfite,.

E se morrermos,
não chore não,
é só poesia.

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Eu pude sentir o cheiro dos teus fluídos naquela fotografia

A língua roxa fedendo a vinho.

A manta exalando amaciante.

No dia seguinte, a boca bebe água,
muita água.

A bunda lânguida senta no sofá.

O olho sequer chora.

Observo o meu tênis vermelho surrado e penso num breve instante que eu queria ser ele.

Ou um anel,
uma lanterna,
um perfume,
uma instalação hidraúlica,
e por que não uma privada?!.

Éramos virtuais,
éramos tão afetuosos quanto um livro de aritmética.

Ele: tão frio quanto um jogo de jantar.

Fizemos sexo por fotos.

E eu me lamentava por ele não ter pintas no pescoço,
me queixava, pois assim eu não poderia brincar de ligar os pontos.

Coisa de gente apaixonada.

Você me entende, né?!

No fundo sabemos o quão acolhedor é sofrer numa cama limpa e cheirosa,
mas precisamos antes de mais nada limpar as nossas almas.

É fácil chorar quando a gente sente que as pessoas que amamos vão nos rejeitar ou morrer. Em pouco tempo o índice de sobrevivência de todo mundo cairá a zero.

Numa compreensão súbita de todas as coisas, fico pasma perante a realidade. Como se tivesse vendo tudo com uma clareza nunca antes vista.

Olho através da janela do trem e certo abatimento envolve-me, fazendo ninho nas minhas células cerebrais.

Quão sublime é a depressão.
Assassinei os segundos internada em um quarto lúcido,
vigilante aos meus mais ensandecidos sentimentos.

Quão sublime são as ruínas emocionais.
Elas nos fazem chorar em outros idiomas.

Eu quero um copo preenchido da mais pura água
e alguém para ler as minhas mãos.
Eu quero observar uma chacina de borboletas.
Eu quero assistir um filme francês ao contrário.
Eu quero a morte aos domingos.
Eu quero testemunhar sofrimentos mais graves que o meu para me curar.

Hoje eu quero quebrar pratos,
queimar vestidos,
sofrer até esquecer o meu nome,
porque a poesia não me salvará.

Pessoas não são respostas, são perguntas

Vejo através dos teus olhos, velhos soís enfraquecidos.
Um que diz adeus quando saúda.
Ensaiando a não ingestão de emoções,
como um ser que não sente enquanto deveras sofre por sentir demais.

Luas caídas em areia incandescente são as tuas memórias.

A dor indescritível que não cabe no espaço inexato de um discurso melancólico.

Há um catálogo de fraquezas dentro da tua garganta.
Pois o grande engano está em acreditar que exista imprecisão na miséria.

Discurso sobre um interior despedaçado

Em madrugadas intranquilas,
entre baratas e garrafas velhas de vinho em volta da cama,
recordo-me que não sei o que fazer.

Qualquer lembrança desconcertante surge
e diz-me o quanto sou impotente perante as minhas emoções.

Meu pensamento dança entre facas eretas que me cortam
e agonizo futilmente a cada fim.

Eu já nem me lembro como cheguei até aqui.

Eu só queria desenvolver a faculdade de esquecer.
Esquecer a tua voz,
a tua expressão facial dura,
o teu chapéu preto tão característico repousando na cabeça.

Pergunto-me onde minha serenidade se perdeu,
entre as indas e vindas,
um acúmulo de dores se deu.

Existe um alfabeto de incertezas dentro dos teus intentos.
Um desafeto pelas cousas que não sara.
Uma instabilidade que deixa teus pés atados pela doença emocional.

Eu abro a torneira das impossibilidades
e limpo o meu rosto,
mas a água se transmuta em sangue
e eu me sinto participante de um crime contra mim mesma.

O mito romântico ainda me matará.

Eu já cai e estou no chão,
escutando o som dos teus monólogos verbais exaustivos que rondam a minha mente
e causam-me desgaste emocional.

A poética dos que não conheceram a verdadeira liberdade, são apenas recortes confusos e fragmentados do ego.

Há, sobretudo, comportamentos que rementem a um tempo remoto.
Pensamentos e emoções congelados,
sempre regidos por valores ultrapassados.

É inexprimível a impotência
mediante a engenharia do fascínio.

Desarma
ou arma?.

O ardor do apego distraí a mente,
não toca a alma.

As ficções da psique nos tornam decadentes.

O poeta é um perdedor,
porque ele leva calor ao outro por meio da palavra,
não do espírito.

O lirismo é a grande oportunidade de imortalizar o fracasso.

As engrenagens do romantismo são alucinógenas,
trazem consigo alucinação e euforia.

Com crise de ansiedade nada é real. Tudo fica distante. Tudo é uma cópia, da cópia, da cópia .

Abracei-o com o pensamento acelerado e debulhei-me em lágrimas.
Não é fácil racionalizar a avalanche de pensamentos irracionais que surgem para amedrontar.

Sons da natureza, chá de camomila, melatonina.

Nenhum paliativo acalma.

Com crise de ansiedade o corpo fica debilitado, fraco, desanimado, frágil, débil, inválido. Sem capacidade de agir.

Privação do sono faz o cérebro comer a si mesmo.
Jack ficou 6 meses com insônia antes de conhecer Tyler Durden.

Dramin na veia.

Insônia presente.

Somente sobrou a barbeiragem no meu braço. Uma grande mancha cor uva.

Com crise de ansiedade tudo fica distante.

A fraqueza corporal.
A mente indecentemente trabalhando sem parar.

Centelhas de medo se desprendendo do cérebro em brasa.

Tudo é uma cópia,
da cópia,
da cópia.

A fábula psicótica dos pensamentos narrando sem cessar.
Buscar racionalizar as narrativas que surgem é sinônimo de fracasso.
Acreditar nelas nem que seja por um instante, para depois elas se dissolverem naturalmente, sem esforço.

E sempre se dissolve.

O desarranjo é um animal mamífero – parte II

Na superfície da minha alma, existe uma luz fraquejante,
e eu ainda não consigo ver toda a sorte de grandezas que há em seu interior.

Meu ópio é o mundo externo:
a reunião de cores, formatos e eventos similares.

O desarranjo é um animal mamífero,
sempre gerando os mesmos filhos.

A angústia, o ressentimento, o egoísmo.

Pensar é uma linha de produção.

Fábrica de ilusões.

O gorduroso excesso de existir ainda nos matará

A linguagem é só uma parte expressa,
de todas as outras que evidencia uma existência inquieta,
celebra as cicatrizes em meio a uma chuva de arroz.

A realidade embalada num papel celofane azul.

A natureza é o urinol de Duchamp,
uma obra de arte incompreendida,
usada como um instrumento de escapismo,
mero enfeite para anestesiar o descontentamento,
esse vazio de furar num encontro consigo mesmo.

O desabrochar do brilho solar:
banquete de projeções moldadas pelo olhar.
As borboletas, os pássaros, as gaivotas, os patos, as joaninhas, querem ser oxigênio sensorial.

O sussuro onírico da contemplação.
Fragrância de cereja.
Balé de beija flores.

Demolir o teatro de significados.
As coisas belas não cumprem protocolos sociais.

Existir é andar de mãos dadas com uma mão morta

As pequenas rachaduras ainda me jogarão em cima de um carro em movimento.

Identificação com a mente.

O suicídio é como um copo de água bebido num dia quente,
é como um pássaro silvestre cantando.

Uma tartaruga saiu da minha boca.
Ela riu do meu apego extremo aos pensamentos e os seus olhos lápis-lazúli me mostrou a minha ruína emocional.

Estar presa num corpo é tão primitivo.

Por não saber como lidar com a anatomia da insensatez,
prefere o findar.