Pulsações

Um dia
houve
sangue
espesso

e

grosso

atrás
das
vestes
da
epiderme.

Do sangue
fez-se
garranchos
dos
garranchos
fez-se
congestionamentos
de
alfabetos

e

sentidos
que só

eu

ou

papéis
por
osmose
poderiam
sentir

e

transmitir.

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O encontro

 

Eu não queria te contar as coisas do jeito que sempre disse, mesmo que fosse somente por um instante. Abri minha carteira e encontrei uma expectativa em tamanho 3×4, perdida entre as notas fiscais, documentos e propagandas que recebi de uma senhora na rua. Após o banho, ao sacudir os cabelos, ouvi seu tom de voz escondido entre os fios, que eu tinha guardado pra não escapar dos ouvidos, e lavando os olhos na pia do banheiro avistei um sorriso seu escorrendo das retinas, aquele lançado ontem e que eu secretamente guardei.
”Queria conversar contigo, te falar algumas coisas que tem me balançado tanto, mas não do jeito que as pessoas normais fazem: emitindo sons articulados pela boca.”, disse. ”Os nossos eus-líricos poderiam dar uma volta e conversar, topa?”, perguntei segundos depois. E ele arregalou os olhos como se eu tivesse feito uma proposta muito da tentadora, e daí logo em seguida prontamente abriu a sua mochila e me ofereceu um caderno e uma caneta. No ato, abri-o e escrevi tudo o que havia de ser dito naquela tarde. Conversamos entre poemas.
Conforme os versos iam sendo impressos nas margens e esquinas do papel e as figuras de linguagem deitadas na folha, o peito esquentava pouco a pouco enquanto eu confessava que os meus lábios queriam orbitar em torno dos dele e que isso seria um bom plano. Ele admirava cada palavra como se fosse um dente de leão sacudido pelo vento e seu semblante valia mais do que qualquer poesia-diálogo escrita em resposta. E se minhas mãos, correndo sobre as ladeiras da folha redigiam um manifesto antimonotonia, é por que queriam envolve-lo.
Um punhado de segredos saltavam do meu coração pro caderno e não teria sido trágico se a caneta tivesse falhado no meio do poema e tudo o que sobrasse fossem vultos de palavras estéreis, presas dentro da carga. Aí, não houve outra alternativa a não ser dizer em alto e bom som: ”vai querer?”.

No bar eu disse: ”Porra, cara, sei muito bem que você não me procurou só porque tá a fim de virar escritor e, afinal de contas, o que é que eu posso te dizer sobre isso a não ser que você tem que mergulhar nessa história com a mesma energia que um viciado se droga?.”