O jogo dos não-amores: sobre pilhas de nervos anestesiadas.

Três gotas de
murmúrios ingratos
escorrendo pelas
vielas dos lábios,
dizendo num
minimalismo absurdo
o não.

Quatro gotas de
indiferenças gratuitas
escorrendo pelo
músculo do lábio,
dizendo num
minimalismo absurdo
o nada.

A face sem expressão,
firme e quieta,
recebendo os maiores
desagrados silenciosamente,
que quem olha
pensa que está
hipnotizada
por irrelevâncias
quaisquer.

Observa fios de chuva,
cortinas obscurecendo
o interior de casas,
o vento empurrando
o gramado,
a estrada sendo pisoteada
por outras rodas.

Como quem desafia
o intranquilo:
estende os olhos e
estanca o sangue implacável.
Arrasta o corpo
pra algum buraco
da cidade
e acena para a metafísica.

 

Confissões do asfalto

No fim da noite,
quando as ruas
estão vazias
e as camas
abarrotadas de
corpos moles,
gosto de ouvir
o barulho dos
meus passos
ressoando sobre
as extensões
do concreto
e busco decifrar
o que me dizem.

O solo emite
timbres de vozes
agudas e fracas
toda vez ao ser
rapidamente pressionado
e segredos são declamados
pela arquitetura da cidade.
Crimes,
desamores,
conflitos
de carne e osso
impressos por solas
de sapatos
sendo confessados
sem o maior pudor
numa catarse coletiva.

Os postes,
com olhares reprobatórios,
espiam de soslaio
e ensaiam quedas
para silenciar assembleias,
num código moral
quase que santificado
de que as metrópoles
jamais devem
entregar os seus pontos.

 

 

O meu coração não
batia assim,
num gorjeio tímido
e quase inaudível
deslizando sobre
as penugens
do horizonte.
Ele irrompia
a terra
igual raiz
atraída
pelo sol.
Ele expandia
em milhares
de supernovas e
vagava sozinho
na imensidão
do universo,
só esperando
que algo
pudesse reconstruí-lo
novamente.

A voz exaltada,
as vogais e consoantes
correndo entre
as cordas vocais saltando
e rasgando
o peito.

A saliva
descendo a seco
e os afetos
de papel
desfeitos no ar
e repousando
noutros abraços inquietos.

Os arranjos
nunca couberam
entre nós.
Teu mundo:
aritmético e lógico.
O meu:
sem estados e fronteiras.

Talvez,
o maior erro
foi cartografar
os nossos desejos,
em que a palma
da tua mão,
bamba e frágil,
guiasse aos
meios e fins.

Em tempos de poesia

Eu tentei viver na ordem perfeita e calculada
de tinta permanente tingida no papel,
mas o destino trafega em vias sinuosas
e bombeia o sangue em rascunhos rasurados,
dizeres despidos de mensuração
soltos como passarinhos num fluxo de consciência.

Eu apertei o gatilho de canetas procurando a redenção,
mas os miolos caíram no papel
e as bolhas de tinta perguntaram:
”Procura calmaria?.
Escrever é tentar manter acordos de paz, em tempos de guerra.”

Eu encontrei os maltrapilhos do mundo
unidos pela folha de papel,
dispondo suas fraquezas em versos
e cortando-as lentamente
em pedaços grandes e pequenos
na busca do dispositivo que a desligava.
Mas, nenhuma tentativa de costurar confortos
foi possível em tempos de poesia.

Redial

  • Na ponta do pé, Joana tentava alcançar o orelhão e desequilibrando enfiou uma ficha telefônica dentro dele. Logo em seguida, correu os olhos sob um tele-listas residencial e observou as opções de nomes masculinos. Por fim, escolheu o que julgava ser o mais agradável de pronunciar. “Mar-ce-lo”, falava pausadamente, como que se contasse um segredo. Segundos depois, atropelou-se na própria ansiedade e apertou os botões rapidamente.
    O telefone tocou na casa de Marcelo, que preparava bolinhos de chuva naquela quinta-feira nublada e atendeu com a mão empanada de farinha de trigo, açúcar e ovo. “Alô!!”  – disse uma voz firme e triste. Joana, do outro lado da linha, sem entender o por que, sentiu o corpo formigando e suspirou. “Gostar talvez seja isso”, deduziu ao desligar.

  • O mochileiro de risadas

    – Desenhei um mapa da tua risada esses dias – declarou enquanto coçava timidamente a barba.
    – Mapa . . . da . . . minha . . . risada? – exclamou pausadamente, enfatizando cada vogal.
    – A representação geográfica dos lugares em que ela me leva de acordo com a intensidade (muda, semi-muda e escandalosa).
    – Você enlouqueceu de vez, né?.
    – Pelo contrário, tenho estado mais lúcido do que nunca. Veja só, as breves e semi-mudas me transportam pra debaixo de árvores, e ouço o falatório do tronco e das folhas.
    – Uau!!. Um novo tipo de mochileiro!!.
    – Se não foi uma espécie de ironia, digo lhe que: sim, sou mochileiro, só que de risadas, e deixando claro que só das suas.
    – Sinto-me estranhamente lisonjeada, embora não consiga me sentir tão confortável com peculiar descoberta. Mas me responde: de todos os lugares visitados: qual foi o melhor?
    – É justamente o ponto onde queria chegar. Geralmente, quando ela é mais longa e barulhenta, os seus olhos naturalmente brilham, suas sobrancelhas arqueiam e as covas resolvem aparecer. Pois bem, nesse momento sou levado ao Canadá e posso assistir a aurora boreal que é criada no céu. É como se um fenômeno espetacular pudesse ser repetido atemporalmente graças a risada mais genial que eu conheci.

    Se o Julio Freitas um dia aparecer de novo, ele provavelmente vai rir, por que a poesia é um bicho que deixa a gente doente e eu estou em estado terminal!.

    A gente sempre tem tudo pra dar errado e fazer isso perfeitamente é quase que uma arte. A gente tem tudo pra escrever sem freios e dormir febril pensando em lotar outros cadernos cheios de tantos delírios, que ficar de olhos fechados na hora de dormir é quase um crime!.

    Não acha?.

    Eu te desafio: vamos ficar os dias e noites acordados buscando saber aonde essa loucura toda vai nos levar, mesmo que pra isso a gente precise cair no solo e se partir em mil pedaços!.