O motoqueiro

I – O encontro

Era um final de tarde incrivelmente nublado, o céu despontava tons acinzentados neblinando a visão. Estávamos todos reunidos em casa, encolhidos como gatos amedrontados, conversando sobre coisas banais. Enquanto isso, minha irmã finalizava bolinhos de chuva na cozinha para forrar os nossos estômagos que de tão vazios já sintonizavam frequências de rádio.
Até que quando menos esperávamos, sem que pudéssemos executar qualquer ato de resistência, uma moto desceu violentamente do céu, entrando dentro da sala. Entreolhamos-nos pasmos. O motoqueiro anônimo, de face disforme, me puxou, levando-me consigo. Todos gritavam confusas exclamações e remexiam os olhos sem parar, como num pesadelo que ninguém podia evitar.
Minha irmã, num impulso desesperado, correu em direção a sala de estar e viu-me sentado na garupa e zunindo na escuridão.Tentei debilmente olhá-la pela última vez, mas a fumaça tragava os meus olhos e embriagava o conjunto de imagens embaçadas.

II: Não durma em estações ferroviárias

O clima era de profunda hostilidade, fazia semanas que o sol não acenava seus ramos de ouro sob o horizonte. Só o cinza nos justificava. Tão cedo descobriríamos o que há por trás dos panos inconsequentes da metrópole. Na estação havia somente senhores usando chapéu coco e fumando cachimbos com as costas encurvadas. Além deles, a única mulher localizava-se na frente de uma loja desativada e discutia com cartas de tarot dispostas numa canga. Nunca estive naquele local, apesar dele me parecer familiar.
Não sabia para onde ir e nem por que fui para a estação, mas fiquei parado ali como se fosse um habitat natural. Minutos depois um conhecido meu foi levado por um motoqueiro anônimo que tinha cortado o céu furiosamente e sequestrado-o. Os velhos permaneciam apertando seus cachimbos e mandando fumaça pra dentro, mas assisti cada segundo da cena e ele tentando se jogar lá do alto.
Num instinto de sobrevivência decidi fugir, porque tinha certeza que seria o próximo. Pedi carona pra uma senhora na estrada e contei detalhe por detalhe do que aconteceu. Ela não podia acreditar no que escutava, mas buscava confiar em mim. Supliquei: ”me deixe em qualquer lugar, só quero ir embora daqui”. E assim ela o fez. Sempre atenta a tudo o que eu dizia.
Ao descer do carro, ironicamente fui deixado em outra estação. As ruas estavam completamente vazias e parecia não existir vida na cidade, só um borrão geográfico que outrora fora habitado por rostos irreconhecíveis. Caminhei sem rumo, mas com tremendo medo de encontrar alguma figura estranha. Dois quarteirões depois passei na frente de camelódromos fechados e deparei com uma criança morta no chão, envolvida por um cobertor.
O ambiente estava ficando pesado demais, deveria voltar para a estação e ir embora, já que andar a pé fodia com cada centelha da minha covardia. Chegando na estação, comprei o bilhete e me dirigi a roleta. Subindo a escadaria dei de encontro com uma cozinha e fiquei me perguntando em voz alta: ”O que significa isso?”. ”Agora funciona assim”, respondeu-me a figura de uma jovem que instantaneamente materializou-se na minha frente. ”Assim?”, retruquei de imediato. ”Você precisa dormir aqui. Há quartos disponíveis logo em frente. Agora só se parte em horários específicos. Não soube que há motoqueiros siderais à solta?”, respondeu sorrindo misteriosamente.
”’Puta merda”, gritei mentalmente enquanto tentava decifrar os olhos dela. Peguei minha mochila e escolhi um quarto para dormir. Dividi ele com uma família que comia silenciosamente e não direcionava a palavra a mim. Durante a madrugada ouvi barulho de pés batendo no chão, inicialmente em ritmos rápidos e depois em ritmos curtos. Concluí que tudo não passava de uma emboscada e que todos encenavam um plano terrível do motoqueiro. Abri a porta lentamente, até que avistei a jovem sentada na moto, vrrrrum na minha direção. Vi que um trem estava prestes a sair, saltei com tudo dentro dele e afundei a mão na cabeça tentando acreditar que dessa vez tudo estaria acabado.

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