Câmbio . . . desligo

Soda cáustica na mente.
Soda cáustica na mente.
Tempestuosas
correntes elétricas sobrevoando
sobrenaturais
estações de rádio ativadas
dizendo
”algo está errado”.

Soda cáustica escorregando
nos degraus.
Para
lisando:
medo e delírio repentino,
mas não em Las Vegas,
meus amigos.

Dunas de correntes elétricas
correntes elétricas
provocando temores repentinos:
brilhando
transmitindo
algo temeroso
entre os oceanos
de soda cáustica.

” É o fim.
É o fim de algo
e o começo de
outra parte
muito preocupante,
meus amigos”

Senhores passageiros,
apertem os cintos,
pois a soda cáustica
está deslizando
e causando desordem social.

Então seus guardas,
corram rápido
e venham dar um jeito
nessa bagunça.

Guardas,
acendam os faróis
dos seus carros,
dos seus carros
da polícia rodoviária,
e me procurem
me salvem
me libertem
antes que os cães
comam a sangue frio
os pedaços de sanidade
ainda restantes.

Os cães
não podem ser soltos,
meus amigos
se não está tudo
verdadeiramente perdido
e não haverá nada,
nada a ser feito.

Tranquilizantes vendidos
por empresas
que ganham com desvios psíquicos
não irão eliminar
as constantes calamidades
provocadas pelas chuvas
de soda cáustica,
portanto seus guardas,
venham logo.
Abram os portões.

Câmbio . . . desligo.

03:23 : 3 cigarros, alguns dedos roídos e palavras errantes na madrugada

É uma sensação estranha. Sim. Uma sensação. Assim como milhares de outras em categorias que invento de como é sentir-se de uma determinada forma. Só que fantasio que nenhuma outra pessoa no mundo sentiu-se assim e estou prestes a inventar uma nova classificação de sensação. Como se fosse uma inauguradora de sensações.
Esse é um passatempo solitário, do mesmo modo que prisioneiros encontram os seus para encararem com mais otimismo e paciência a prisão. Um passatempo solitário com a minha consciência. No fundo queria provar a mim mesma que não podia ser possível alguém sentir o que eu sentia, porque era tão pesado, confuso e inominável, tão óbvio, mas ao mesmo tempo tão complexo.
A minha vida é resumida a tentar entender isso, a adentrar num universo inóspito e recheado de significados esquisitos que não conseguiria dar conta por mim mesma. Etnógrafa da minha própria história de vida: colhendo dados escassos e documentos destruídos pelo tempo, lembranças enganosas e momentos nublados.
Um incomodo capilar, confesso. Quanto mais cabelos caem, mais novos surgem dando espaços a novas insatisfações. Sinuca de bico. Estoque de lacunas mal administradas.
Quem poderia entender isso por mim?. Será que eu conseguiria entender por mim mesma e atravessar a floresta obscura na qual caminho?. ”O que teria do outro lado dela?”. Me pergunto. Porque realmente queria avistar com clareza o que há do outro lado, me sentindo no mesmo dilema que os habitantes de Macondo quando queriam saber o que existia além do pantanal.
Só que recorrer a isso demanda força, coragem e uma grande dose de inteligência para analisar com riqueza o que me seria oferecido. Justamente na dose certa que reside o perigo, porque qual seria a contagem exata?. Como medir essa contagem?. Com a ajuda de qual aparelho?. E mais importante ainda: quando parar?. Quando eu realmente teria conhecido por completo os campos inexplorados da minha mente?. Haveria completude no infinito?. Não, eu sabia que não.
Cumprindo o clichê: muitas perguntas e poucas respostas. Muitos por ques mal estruturados que deveriam ser revisados constantemente, já que jamais serão formulados da maneira exata. Lembrando também que, se os limites do mundo sensível diminuem a possibilidade de resolver o enigma, será que eu realmente deveria tentar compreender algo?. Será que não seria pretensão demais?. Será que haveria algo para ser compreendido ou simplesmente deveria viver a gratuidade da vida na sua plenitude?.
Existem grandes caras na minha instante que deixaram pistas sobre como desbravar esse mundo anônimo, e eu poderia escolher a que mais se ajustasse a mim, mas ainda assim tenho a vaga certeza de que não teria a fibra de energia que eles tiveram para encontrar o que encontraram e nas condições que encontraram. Não são santos, sobretudo são humanos, e tem tudo isso que nos constitui enquanto seres únicos. O amontoado de membros padronizados e cérebros que podem ser usados para os mais variados projetos de humanidade. Porém, tiveram coragem, coragem para fazer uma boa safra no território da mente.
Quem poderia dizer que tudo já foi dito?. Quem poderia dizer que tudo já foi incessantemente analisado e que não há novos aposentos à serem inspecionados?. Mas, o que eu poderia fazer além de sentar e simplesmente admirar o fluir das minhas dúvidas e ruínas?. A não ação também é agir, disso sei muito bem e portanto dou bom grado da mesma maneira, aceito que não terei o mínimo de garra que eles tiveram pra revolucionar a linguagem, a literatura, e principalmente usar a última para chegar perto de alguma resposta que aliviasse suas crises existenciais.

Santa solidão

Fugir,
esconder-se
entre diálogos oculares
com o grande senhor
flutuante nada,
batidas de canhões gramaticais,
feixes de solidão
criados por mentes lânguidas
numa torrente amarga
indisciplinada –
não será o último,
não seremos os últimos,
só seremos a continuação
do que não fomos ontem
instantes após
o fracasso iminente.
Só queríamos desesperadamente ser

caligrafias semi-apagadas
na nota fiscal

eremitas urbanos,
encontrando-se somente
com analistas
de canas de açúcar celestiais
nas sarjetas mal encaradas
de beira de estradas –

O silêncio que definha
entre o falatório geral
o silêncio enterrado
entre vozes e bocas ávidas
por se movimentar,
revolvendo o mundo
num desconexo caos
de discursos longos
curtos
amontoados frasais
que tornam as vidas
rasteiras e pequenas.

”Solidão
”Silêncio”,
as colheres pesadas
de açúcar pedem,
conforme enterram-se sumariamente
dentro da xícara de café.
”Solidão”
o vento prossegue
no sacudir marítimo
dos cabelos cheirando
a shampoo caro
das meninas
de sorrisos periféricos
com poemas de Hart Crane
e Ezra Pound nas mãos.
”Solidão”
as garotas
e garotos pedem
enquanto fecham
as portas das suas
cavernas de tijolo

O palhaço

O palhaço ri,
o palhaço chora,
O palhaço envolve
e vai embora,
despindo-se atrás
das cortinas,
ao fim
do espetáculo.

O palhaço limpa
a tinta
no rosto
não sabe
qual é o
verdadeiro lado
da sua identidade:
alegria ou
infelicidade.

O palhaço quer
ser o carrinho
de sorvete,
mas também
os corpos
que correm
atrás dele,
atordoado
entre saraivadas
de gritos

O palhaço quer
alguém pra fazê-lo
sorrir,
uma cama pra deitar
com o seu amor,
o palhaço quer
um ventilador.

Ah! Se soubesse de antemão
como opera a maquinaria da fisionomia
enxergaria com prudência,
temerosa em naufragar
nos infinitos arquipélagos da expressão
e sorver os instantes pausadamente
como gotas quentes de café.

Ah! Se houvesse entendimento anterior
não empreenderia tamanha dedicação,
abriria um decreto interno impedindo a contemplação,
me aventuraria em novas modalidades de apreciações
para nublar o torpor que causa tua existência.

Agora, inválida,
os sentidos não me respeitam.
Agrupados respeitosamente em filas
curvam-se prontamente ao te ver
e o que ressoa em mim
é uma espécie de tranquilidade
que somente os fumos mais caros poderiam me oferecer.

Agora, suspiro,
e tudo o que redijo mentalmente,
sobretudo, o que sinto,
tem como elemento comum
a corrida obstinada em encontrar
a substância secreta que deu
textura, corpo e forma
a matéria do sentimento.

Conversas surrealistas. Da série: bunker literário

23:00. Após longa noite na cafeteria, Arthur abriu a porta giratória da entrada e seguiu rumo a casa. Os pés amaciavam a calçada levemente, em passos silenciosos, a sola antiga desfiava vagarosamente no chão. Ao passo que uma senhora escondida em um vestido verde berrante e cabelos grisalhos delicadamente esticados por um prendedor de madeira, abordou-o subitamente,  já que os olhos de Arthur permaneciam estéreis, dado que a visão havia perdido sua funcionalidade em lugar aos pensamentos que fluíam vivamente.
– Moço, não é curioso?. – disse com expressão dócil.
– O que, senhorita?. – indagou.
– Não andarmos munidos com caderno em mãos, por exemplo. – observou cuidadosamente, em voz baixa, sussurrando em frente a fachada de um antigo antiquário que funcionava nos horários mais inusitados. – É tanto pensamento estalando, deveríamos jogar o seu substrato na folha. – afirmou firmemente.
– Nem sempre é possível caminhar em plumas, não acha?. Hoje agradeço por ter tido tempo para tomar café já que os dias parecem um ralo, e te garanto senhora, me seguro com força na tampa dele pra não ir embora junto. – sublinhou tristemente, voltando o olhar à cenários inexistentes, mas que o permitiam reflexões profundas sobre algo desconhecido para ela. Reflexões que talvez não fossem precisas e somente simbolizassem o desespero dele em compreender o que jamais poderia ser compreendido: o conjunto de respirações universais da qual fazia parte e lamentava por o fazer.
– De acordo, rapaz. – assentiu sacudindo a cabeça. Logo em seguida, completou:
– Não quer entrar?. Uma fumaça de chá dançando no ar enquanto conversamos seria reconfortante. – sorriu fitando o semblante perdido de Arthur.
Marília era o seu nome. Sussurrou enquanto andavam em direção a um desconhecido aposento da casa. Ela era branca como a neve, uma senhorinha de constituição frágil e delicada, pronta para desmontar a qualquer momento. Numa análise mais cuidadosa, pode-se apontar que Arthur contracenou num instante do qual desconhecia por completo, instigado pelos clarões de ternura daquela desconhecida senhora. Durante alguns segundos, ele atentou-se à pinta embaixo do olho de Marília e concluiu secretamente que pintas embaixo da vista tornam as dores mais singelas.
O local anônimo para onde iam em direção fazia seu coração palpitar, e algo por dentro dele estremecia, o impelindo a sorver doses cada vez maiores de uma substância que desconhecia por completo, mas precisava desesperadamente, configurando uma necessidade orgânica não identificável, alheia aos seus escassos conhecimento do que podia lhe completar. Não, não seria um copo de bebida permitindo com que Arthur despertasse de uma existência automatizada, mas talvez um papel e uma caneta, como Marília havia sugerido no primeiro instante em que se conheceram.
Mais adiante, viu-se descendo a escada que conduziriam ambos ao temeroso fim da linha. Eis que Marília disse: ”Bem, aqui estamos. Espero que goste do que verá” Naquele exato momento Arthur deparou-se com um sótão subterrâneo semi iluminado, entretanto com temperatura agradável, tendo em vista que ventiladores estilo tufão sopravam por toda a parte do ambiente, permitindo com que a pele fosse agraciada com brisas frescas. A sua frente, abriu-se um mar de homens e mulheres batendo ininterruptamente em máquinas de escrever das mais variadas marcas e cores, mas todas bastante sofisticadas.
Arthur virou rapidamente a cabeça para Marília, que estava atrás dele, e perguntou estupefato: ”O que escrevem?”. Sem titubear, ela respondeu num gracejo senil: ”O que lhes der na cabeça”. ”Os conhece de onde?”, novamente questionou em busca de uma resposta tão precisa quanto uma régua. ”São viciados em escrever. Possuíam uma vida medíocre participando do tal mundo concreto e os acolho com muito bom grado. Afinal, é o que querem”, revelou com tranquilidade. ”Então, isto seria uma espécie de bunker literário?”, disparou encantado. ”Bem, se entende desse modo, cabe como definição”, disse rindo. Depois de um pequeno silêncio, acrescentou: ”Tem certeza de que o quer que faça lá fora é melhor que escrever, Arthur?. As vezes precisamos de provações pra viver o que amamos com plenitude”.
Arthur ficou desconcertado, porque acreditava nas palavras daquela linda senhora com sorriso de sol, na verdade queria abraçá-la por ter mostrado o que mostrou, pois era como estar de frente para o eldorado poético. Quem sabe não houvesse reais problemas em ter uma vida semi-gregária, pois assim como o amor aquela espécie de pensão – já que havia locais para dormir, banhar e se alimentar – trazia um sopro de vida, enchia a sua alma de alegria, porque revelava para si um novo mundo, uma temporada onde ele poderia conversar com nada mais, nada menos que os seus eus líricos, que dia após dia apunhalou na labuta extenuante de um mundo que na verdade não via mais sentido em fazer parte.

Conversas surrealistas – Da série: daguerreótipo do pensamento das coisas.

– Veja bem!

– Que?

– Peço que veja bem!.

– Vejo bem!. O que é ver bem, senão enxergar?.

– Fertilizar olhares estéreis.

– Olhar estéril?. O que é isso.

– Olhar com funcionalidade restrita. Eu to olhando tua camisa rosa salmão, o raio de sol batendo no teu cabelo cacheado e a xícara de chá repousando entre seus dedos, mas caramba, será que é só isso?. Deduzo que não!.

– Só isso o que?.

– Só o que consigo tirar da visão. Será que teu cabelo pode me dizer alguma coisa?.

– Cabelos não falam, não inventa moda, cara!

– Falam nesse exato momento, mas sua insensibilidade espanta o moleque, não amordaça a boca dele.

– Por isso que você fica nem um paspalho, parado, num transe inexplicável?. Por querer ouvir o que as coisas dizem?.

– Claro!. Igualmente quero um daguerreótipo do pensamento das coisas, só que tirado com os olhos e sem banho de prata, entende?.

– Talvez! Mas é impossível, não acha?. Quem sabe não seja melhor se contentar com a faculdade de lembrar?.

– A cachola engana, amigo, e os papeis um dia morrem, esfarelam como pedaços de pães quando menos esperamos.

– Não acredito que participarei de uma tolice dessas, mas vai em frente, converse com o meu cabelo. Sabia que a lenda popular diz: ‘’os cachos pretos são mais comunicativos que os loiros”?. Nunca levei fé, quem sabe seja mentira, não é?.