Conversas surrealistas. Da série: bunker literário

23:00. Após longa noite na cafeteria, Arthur abriu a porta giratória da entrada e seguiu rumo a casa. Os pés amaciavam a calçada levemente, em passos silenciosos, a sola antiga desfiava vagarosamente no chão. Ao passo que uma senhora escondida em um vestido verde berrante e cabelos grisalhos delicadamente esticados por um prendedor de madeira, abordou-o subitamente,  já que os olhos de Arthur permaneciam estéreis, dado que a visão havia perdido sua funcionalidade em lugar aos pensamentos que fluíam vivamente.
– Moço, não é curioso?. – disse com expressão dócil.
– O que, senhorita?. – indagou.
– Não andarmos munidos com caderno em mãos, por exemplo. – observou cuidadosamente, em voz baixa, sussurrando em frente a fachada de um antigo antiquário que funcionava nos horários mais inusitados. – É tanto pensamento estalando, deveríamos jogar o seu substrato na folha. – afirmou firmemente.
– Nem sempre é possível caminhar em plumas, não acha?. Hoje agradeço por ter tido tempo para tomar café já que os dias parecem um ralo, e te garanto senhora, me seguro com força na tampa dele pra não ir embora junto. – sublinhou tristemente, voltando o olhar à cenários inexistentes, mas que o permitiam reflexões profundas sobre algo desconhecido para ela. Reflexões que talvez não fossem precisas e somente simbolizassem o desespero dele em compreender o que jamais poderia ser compreendido: o conjunto de respirações universais da qual fazia parte e lamentava por o fazer.
– De acordo, rapaz. – assentiu sacudindo a cabeça. Logo em seguida, completou:
– Não quer entrar?. Uma fumaça de chá dançando no ar enquanto conversamos seria reconfortante. – sorriu fitando o semblante perdido de Arthur.
Marília era o seu nome. Sussurrou enquanto andavam em direção a um desconhecido aposento da casa. Ela era branca como a neve, uma senhorinha de constituição frágil e delicada, pronta para desmontar a qualquer momento. Numa análise mais cuidadosa, pode-se apontar que Arthur contracenou num instante do qual desconhecia por completo, instigado pelos clarões de ternura daquela desconhecida senhora. Durante alguns segundos, ele atentou-se à pinta embaixo do olho de Marília e concluiu secretamente que pintas embaixo da vista tornam as dores mais singelas.
O local anônimo para onde iam em direção fazia seu coração palpitar, e algo por dentro dele estremecia, o impelindo a sorver doses cada vez maiores de uma substância que desconhecia por completo, mas precisava desesperadamente, configurando uma necessidade orgânica não identificável, alheia aos seus escassos conhecimento do que podia lhe completar. Não, não seria um copo de bebida permitindo com que Arthur despertasse de uma existência automatizada, mas talvez um papel e uma caneta, como Marília havia sugerido no primeiro instante em que se conheceram.
Mais adiante, viu-se descendo a escada que conduziriam ambos ao temeroso fim da linha. Eis que Marília disse: ”Bem, aqui estamos. Espero que goste do que verá” Naquele exato momento Arthur deparou-se com um sótão subterrâneo semi iluminado, entretanto com temperatura agradável, tendo em vista que ventiladores estilo tufão sopravam por toda a parte do ambiente, permitindo com que a pele fosse agraciada com brisas frescas. A sua frente, abriu-se um mar de homens e mulheres batendo ininterruptamente em máquinas de escrever das mais variadas marcas e cores, mas todas bastante sofisticadas.
Arthur virou rapidamente a cabeça para Marília, que estava atrás dele, e perguntou estupefato: ”O que escrevem?”. Sem titubear, ela respondeu num gracejo senil: ”O que lhes der na cabeça”. ”Os conhece de onde?”, novamente questionou em busca de uma resposta tão precisa quanto uma régua. ”São viciados em escrever. Possuíam uma vida medíocre participando do tal mundo concreto e os acolho com muito bom grado. Afinal, é o que querem”, revelou com tranquilidade. ”Então, isto seria uma espécie de bunker literário?”, disparou encantado. ”Bem, se entende desse modo, cabe como definição”, disse rindo. Depois de um pequeno silêncio, acrescentou: ”Tem certeza de que o quer que faça lá fora é melhor que escrever, Arthur?. As vezes precisamos de provações pra viver o que amamos com plenitude”.
Arthur ficou desconcertado, porque acreditava nas palavras daquela linda senhora com sorriso de sol, na verdade queria abraçá-la por ter mostrado o que mostrou, pois era como estar de frente para o eldorado poético. Quem sabe não houvesse reais problemas em ter uma vida semi-gregária, pois assim como o amor aquela espécie de pensão – já que havia locais para dormir, banhar e se alimentar – trazia um sopro de vida, enchia a sua alma de alegria, porque revelava para si um novo mundo, uma temporada onde ele poderia conversar com nada mais, nada menos que os seus eus líricos, que dia após dia apunhalou na labuta extenuante de um mundo que na verdade não via mais sentido em fazer parte.

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