03:23 : 3 cigarros, alguns dedos roídos e palavras errantes na madrugada

É uma sensação estranha. Sim. Uma sensação. Assim como milhares de outras em categorias que invento de como é sentir-se de uma determinada forma. Só que fantasio que nenhuma outra pessoa no mundo sentiu-se assim e estou prestes a inventar uma nova classificação de sensação. Como se fosse uma inauguradora de sensações.
Esse é um passatempo solitário, do mesmo modo que prisioneiros encontram os seus para encararem com mais otimismo e paciência a prisão. Um passatempo solitário com a minha consciência. No fundo queria provar a mim mesma que não podia ser possível alguém sentir o que eu sentia, porque era tão pesado, confuso e inominável, tão óbvio, mas ao mesmo tempo tão complexo.
A minha vida é resumida a tentar entender isso, a adentrar num universo inóspito e recheado de significados esquisitos que não conseguiria dar conta por mim mesma. Etnógrafa da minha própria história de vida: colhendo dados escassos e documentos destruídos pelo tempo, lembranças enganosas e momentos nublados.
Um incomodo capilar, confesso. Quanto mais cabelos caem, mais novos surgem dando espaços a novas insatisfações. Sinuca de bico. Estoque de lacunas mal administradas.
Quem poderia entender isso por mim?. Será que eu conseguiria entender por mim mesma e atravessar a floresta obscura na qual caminho?. ”O que teria do outro lado dela?”. Me pergunto. Porque realmente queria avistar com clareza o que há do outro lado, me sentindo no mesmo dilema que os habitantes de Macondo quando queriam saber o que existia além do pantanal.
Só que recorrer a isso demanda força, coragem e uma grande dose de inteligência para analisar com riqueza o que me seria oferecido. Justamente na dose certa que reside o perigo, porque qual seria a contagem exata?. Como medir essa contagem?. Com a ajuda de qual aparelho?. E mais importante ainda: quando parar?. Quando eu realmente teria conhecido por completo os campos inexplorados da minha mente?. Haveria completude no infinito?. Não, eu sabia que não.
Cumprindo o clichê: muitas perguntas e poucas respostas. Muitos por ques mal estruturados que deveriam ser revisados constantemente, já que jamais serão formulados da maneira exata. Lembrando também que, se os limites do mundo sensível diminuem a possibilidade de resolver o enigma, será que eu realmente deveria tentar compreender algo?. Será que não seria pretensão demais?. Será que haveria algo para ser compreendido ou simplesmente deveria viver a gratuidade da vida na sua plenitude?.
Existem grandes caras na minha instante que deixaram pistas sobre como desbravar esse mundo anônimo, e eu poderia escolher a que mais se ajustasse a mim, mas ainda assim tenho a vaga certeza de que não teria a fibra de energia que eles tiveram para encontrar o que encontraram e nas condições que encontraram. Não são santos, sobretudo são humanos, e tem tudo isso que nos constitui enquanto seres únicos. O amontoado de membros padronizados e cérebros que podem ser usados para os mais variados projetos de humanidade. Porém, tiveram coragem, coragem para fazer uma boa safra no território da mente.
Quem poderia dizer que tudo já foi dito?. Quem poderia dizer que tudo já foi incessantemente analisado e que não há novos aposentos à serem inspecionados?. Mas, o que eu poderia fazer além de sentar e simplesmente admirar o fluir das minhas dúvidas e ruínas?. A não ação também é agir, disso sei muito bem e portanto dou bom grado da mesma maneira, aceito que não terei o mínimo de garra que eles tiveram pra revolucionar a linguagem, a literatura, e principalmente usar a última para chegar perto de alguma resposta que aliviasse suas crises existenciais.

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