Os estrangeiros

Estrangeiros de si
numa pátria de não-reconhecimento.
A miséria, o único legado deixado.
A distância entre corpos
desconhecidos: verso e anverso da tela.

Século dos seres alheios
a si mesmos, trancafiados em cubículos
tecnológicos, no entre-meio
das definições e sentimentos patentiados,

O que era essa figura disforme lutando com eles?.
O que pretendia dizê-los?.
Como traduzir a sua linguagem?.
Estrangeiros de si
numa pátria de não-reconhecimento.
A miséria: o único legado deixado.

Corpos fedendo a estupidez
individualidade e agonia.
Os corações, olhos, bocas e ouvidos
preenchidos com sopro de vida barato e descartável.

Século dos seres alheios a si mesmos.
Eram tempos estranhos.
O outro eu,
peça avulsa do quebra-cabeça.
Contra si
contra todos.

Das lágrimas caídas

Ela fechou a janela
juntamente com a cortina,
reclinou o copo de chá no colo
e dobrou as pernas
em formato circunflexo,
aproximando a porcelana quente do corpo.

Chorou.
Chorou
como se chora na primeira vez:
saindo da superfície
e mergulhando sem pudor.
Chorou sem ser sequer baixinho:
a saída das lágrimas
mais pareciam
paridas num parto normal.

Chovia lá fora,
os trovões deslocavam
mobilhas dos lugares
e ela podia visualizar
as cabeças feitas da noite
chorando consigo,
exiladas em seus aposentos,
tragando segundo após segundo
dos únicos instantes
em que os choros
seriam abafados piedosamente
pela mãe natureza.

Pé na estrada

Eram dez e cinquenta e sete
e eu conversava com a consciência.
Nesta noite ela decidiu
que deveriam ser superadas
todas as neuroses
e partiríamos enfim
para planos específicos
o que incluía
pavimentar rodovias esburacadas
para finalmente cairmos na estrada.

Assenti com os olhos murchos,
esvaziando sobre as poças
da rua em frente ao bar,
igual bolas de aniversário
navegando a esmo no ar,
sem conhecimento dos futuros movimentos,
e disse:
”Tudo bem, mas não garanto que serei forte”.

Como mãe acariciando
a cabeça da filha,
ela ordenou docilmente
o fluxo dos acontecimentos,
preparou listas de compras da alma
enquanto eu anotava os itens
silenciosamente,
escutando com atenção
sua voz lúdica.

Item 1 – Siga várias estradas e atalhos,
um só caminho não a levará ao destino.

Item 3: Esteja preparada
para sangrar.
Sangue salpicará o mapa rodoviário.

Item 4: Dê atenção aos companheiros
e companheiras espalhados nas estradas da mente.

Abati o último cigarro ainda restante,
arrumei as malas,
era preciso fugir
antes que minha cabeça fosse premiada
e os vermes brilhantes da loucura
devorassem a carcaça
em banquetes antropofágicos
de um corpo semi-vivo.

Bastava seguir o conjunto
de estrelas fixas
espalhadas no firmamento
rumo ao complexo de ruas
e bares famintos,
onde segundo Kerouac
a pérola seria ofertada
e as emoções do mundo
reuniam-se numa só linha.

A cada cigarro aceso calmamente
entre puxadas profundas e
olhares bêbados cantando fragilidade
eu compreendia obscenamente
numa mistura de razão
e loucura
os manuscritos da paixão.

A cada leitura do sentir
o peito estala,
sinto fazer parte
de algo maior,
uma sociedade secreta
na qual o coração
é a metáfora mais simples
para explicar a desordem
que causa o teu sorriso.

As noites ardendo em febre
lendo seus dramaturgos preferidos
é a forma mais ingênua
de estar ao seu lado.
O brilho nos seus olhos
falando deles,
o amor impresso no timbre
da tua voz
quando fala sobre tudo
que te importa
me comove profundamente.

Não há cigarro que apague
a profusão de fogos artifícios
soltados dentro de mim
quando admiro seu olhar vazio
nenhum Derby azul resolverá isso,
nenhum copo de cerveja,
nem os versos do Allen Ginsberg,
nem the strokes cantando
”You only live once”
nem a voz melancólica do Carlos Drummond
declamando poesias.
Ainda não inventaram algo
que consiga dar conta
do que você provoca
em mim.

O filme

12 cigarros. ”Ela não costumava fumar, mas cada vez mais me diz que não consegue suportar a ideia de viver até a velhice”. 15 copos de cerveja. ”No início, ela bebia para conseguir sorrir. Agora, para chorar”. 100 fios de cabelo cheirando a nicotina. ”20 folhas com tentativas de poesia. ”Meus dedos frios estão paralisados ao redor da caneta, me pergunto se eles estão atrofiados, pois não obedecem aos meus comandos.” 90 noites maldormidas. ”Segredo para a insônia: experimente tomar barbitúricos e álcool com a cabeça enfiada em um saco de limpeza a seco”. 30 tardes pensando em como as coisas poderiam ser. ”O pensamento quando precedido da não ação arquiteta castelos de areia” 31 dias existindo no automático. ”Respirar, comer, enxergar, dormir, andar.”. 17 cansadas de mão no olho. 900 lágrimas não despejadas. ”Faz um tempão desde a última vez em que senti alguma coisa”. 2000 diálogos com a consciência. ”Conversar consigo mesmo é a melhor forma de ser compreendida, ela diz. Se não funcionar ligo para números desconhecidos.”
80 tristezas não diluídas no copo de cerveja. 15 dias sendo expectadora. ”Estamos todos condenados a passar nossas vidas assistindo a um filme que mostra a nossa vida – ficamos o tempo todo representando algo que na verdade acabou de acontecer” 31 dias contracenando. ”Todo mundo, todo mundo em toda parte, está rodando o seu próprio filme, seu próprio roteiro, e feito loucos todo mundo representa o seu papel, só que a maioria das pessoas não tem a mínima ideia de que estão presas na ratoeira do seu roteirinho.” 31 noites andando na rua sem destino. ”5 horas andando e ainda continuo no mesmo lugar.” 25 céus cinzas observados. 9 olhadelas para a janela aberta de par em par. 1 queimada no globo ocular. 17 insatisfações mal administradas. ”As pessoas não querem consertar a própria vida. Ninguém quer resolver os próprios problemas. Seus dramas”. 2 pensamentos suicidas. ”Uma pessoa com tendências suicidas já não tem mais muito senso de humor”
06:00, 15:00, 22:00, 00:00. ”Quase todas as noites da minha vida são assim agora.” Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. 1 mês. 20 cigarros. ”Se pelo menos alguma parte da minha vida funcionasse direito – ela diz a um novo cigarro antes de acendê-lo.” 40 copos de cerveja. ”Um passeio interminável”. 300 fios de cabelo cheirando a nicotina. ”Ela não costumava fumar, mas cada vez mais diz que não consegue suportar a ideia de viver até a velhice”. 40 folhas com tentativas de poesia. ”Ela bate a ponta da caneta no caderno e espera enquanto dá mais uma baforada no cigarro e solta a fumaça.”30 noites maldormidas. 19 tardes pensando em como as coisas poderiam ser. 31 dias existindo no automático. 25 cansadas de mão no olho. 1000 lágrimas não despejadas. ”Isso não pode estar acontecendo, porque segundo o roteiro eu deveria chorar.”
2000 diálogos com a consciência. 100 tristezas não diluídas no copo de cerveja. ”Nada deveria ser tão difícil. Você põe a bebida no copo, bebe, e pronto o problema seria eliminado como mancha retirada por sabão em pó”. 31 dias sendo expectadora. ”24 horas assistindo o mesmo filme”. 31 madrugadas decorando o roteiro. 31 dias contracenando. ”Escrava em tempo integral”. 31 noites andando na rua sem destino. ”Lá fora, a lua está cheia. A respiração da cidade embaça a minha visão. Tropeço e caio de cara na tampa do esgoto”. 25 céus cinzas observados. 9 olhadelas para a janela aberta de par em par. ”Se não houver nada de bonito para olhar, olhe o que tiver para ser olhado e tente encontrar conforto nisso”. 3 queimadas no globo ocular. 17 insatisfações mal administradas. ”Por que você nunca se abre e compartilha qualquer sentimento em relação a si?” 2 pensamentos suicidas. ” – Morrer doí muito?.” ”Bem, queridinha, digo a ela, sim, mas doí muito mais continuar a viver” 06:00, 15:00, 22:00, 00:00. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. 365 dias do resto da vida. ”Está cansada de sofrer?. Pergunto: se houver apenas uma maneira de acabar com a dor, ela vai aceitar?.”