Pé na estrada

Eram dez e cinquenta e sete
e eu conversava com a consciência.
Nesta noite ela decidiu
que deveriam ser superadas
todas as neuroses
e partiríamos enfim
para planos específicos
o que incluía
pavimentar rodovias esburacadas
para finalmente cairmos na estrada.

Assenti com os olhos murchos,
esvaziando sobre as poças
da rua em frente ao bar,
igual bolas de aniversário
navegando a esmo no ar,
sem conhecimento dos futuros movimentos,
e disse:
”Tudo bem, mas não garanto que serei forte”.

Como mãe acariciando
a cabeça da filha,
ela ordenou docilmente
o fluxo dos acontecimentos,
preparou listas de compras da alma
enquanto eu anotava os itens
silenciosamente,
escutando com atenção
sua voz lúdica.

Item 1 – Siga várias estradas e atalhos,
um só caminho não a levará ao destino.

Item 3: Esteja preparada
para sangrar.
Sangue salpicará o mapa rodoviário.

Item 4: Dê atenção aos companheiros
e companheiras espalhados nas estradas da mente.

Abati o último cigarro ainda restante,
arrumei as malas,
era preciso fugir
antes que minha cabeça fosse premiada
e os vermes brilhantes da loucura
devorassem a carcaça
em banquetes antropofágicos
de um corpo semi-vivo.

Bastava seguir o conjunto
de estrelas fixas
espalhadas no firmamento
rumo ao complexo de ruas
e bares famintos,
onde segundo Kerouac
a pérola seria ofertada
e as emoções do mundo
reuniam-se numa só linha.

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