Não espere Godot

Sugestão

Cansou-se de esperar Godot,
pois sabia
é de ida feita sua vida.
Sem passaporte de volta.
Rasgou-o.
Sábio foi.
Tu sangrou
e chorou
em cima desta merda.
pelos motivos
mais cabíveis possíveis.

A formação do ator
quando jovem.
O vir a ser quando se é.
Genialidade na tua dor,
na tua arte.
Por ser precisa,
desumana,
atrevida.
Jamais serviria
de riso
ou espio de soslaio
por espectadores com desprezo.

Então sangre.
Os pontos não serão fechados.
Não nesta noite.
Não nesta vida.
Jogaste maconha
álcool
ácido lisérgico
e abriu os olhos
desta ferida tão linda.

Agora
elas te veem,
conversam com você.
Sei,
isto lhe assusta.
É de fazer
as pernas
tremer,
não é?.

Vá.
Não espere Godot.
Não espere sarar.
Ele não virá.
É de ida
feita tua vida.
Assim como a dele foi.

Anúncios

Ensaio do desassossego

Ah, pequena,
desenlace desarmonias
sacudidas ao vento.
Alinhá-las?.
Desafio.
Jamais cogitaria.

Lirismos absurdos.
Métricas sem cadência.
Medidas do verso da vida.
Monotonia.

Lirismo as avessas.
Turismos inconclusos
nas nações do ser.
Sem rima.
Sem compasso.

Só carne viva.

Um ponto final ou uma vírgula.
Não sabe.
Não decide.
Por hora, sorri por diplomacia.

Ah, pequena,
tu que não tens porra nenhuma a dizer,
só desordem, livre associação de ideias,
psicoterapia de fundo do quarto.
O caderno ri da tua investida.

Folia delivery

Ainda há de empanturrar-se.
Colesterol das vivências.
Festejos add infinitum.
Acumulado aos montes.
Estoque para todo o sempre.
Experiencie sem parar.
Alucinam-lhe os lampejos de êxtase.

Contemplação em série.
Delivery.
Vinte quatro horas por dia.
Cada pulsação
toda pulsação ensandecida
de segunda a domingo.
365 dias.
Talvez medo da agonia?.

Mar de confetes.
Carnaval sem data.
Mergulhe no abismo
de tudo o que considera vida
e beleza
e alegria.
e o que não é descarta-se.
Carcaça mal cheirosa te aterroriza.

Precisa sorrir?.
Pois sorria.
Estique os músculos cerebrais
se jogue na folia
devore as sobras da festa no outro dia.
Basta requentar
e ensaiar novamente admiração e espanto,
como se estivesse diante de fenômeno novo.

Quero me sentir inteira antes da noite acabar . . .

20150220_222328

A poesia salva? Quando você está prestes a pirar, descalço, sem dignidade, sem controle, ela segura o volante esferográfico e arruma a bagunça interna?. A lâmina te corta por dentro e o sangue escorre descontroladamente, como água vazando após estouro de hidrante, mas as palavras vão fazer sutura dessa ferida?.

O copo caí no chão e se divide em milhares de fragmentos, cada unidade do que o forma como ente material se separa, e por fim só sobram estilhaços do que antes era um objeto inteiro. Sou o copo quebrado no chão.

Os estilhaços me machucam, fecho os olhos pra minimizar a experiência dolorosa de sentir a mente rasgando. É tão profundo o corte,  não é nem ao menos aquele corte superficial, ele vai na raiz de tudo o que me deixa sem ar e ilhada.

Quero ser um copo inteiro antes dessa noite acabar, antes mesmo das praças ficarem vazias e as estradas silenciosas. Um copo sem um pedaço sequer dele faltando. Quero que a poesia me salve, porque a única forma que consigo me realizar e me constituir enquanto ser é escrevendo, mas me enganei completamente ao acreditar que isto iria aliviar por completo minhas dores.

Dezoito de fevereiro

Há certas ocasiões em que sinto muito.
Sinto incessantemente,
um sentir desnorteado que interrompe noites de sono,
jogando as emoções em cadeiras de rodas,
e angustiada não sei como lidar com o modus operandi da frustração.

Eu sento no quintal,
ponho fumaça pra dentro dos pulmões
e olho as sensações lutando esgrima,
e desejo bem lá no fundo
dos destroços do meu peito fedendo a fumaça
e palavras inomináveis
uma vontade sobre-humana de leiloar
a capacidade de nutrir estima.

Eu sento repetidas vezes
em todas as noites chuvosas, quentes ou estreladas,
e de dedos cruzados
torço pra que Hipócrates seja amaldiçoado.
Maldito por ter elucidado
que os sentimentos não vem do acaso:
as reações químicas do meu cérebro
que me deixam nesse infeliz descompasso.

E penso no peso
do estorvo da memória
que lateja lembranças inflamáveis,
por vezes reanimando
uma cabeça que sabe manejar versos,
não afetos.

E tento rir das preocupações
e banalidades sistematicamente cultivadas,
porque fazem-se pungentes, humanas,
um banho de profunda fragilidade,
embora genuína existência.

Só me resta admirar as saias de tafetá azul

Vi o tecido do mundo brilhando
enquanto girava tonta                              em volta da barra da saia do céu.

Queria enxergar o seu semblante
e o infinito de órgãos escondidos lá em  cima.

Pobre alma a minha,                                só avistava os pés
e a saia de tafetá azul estremecendo
sob as estrelas.

Conversei com senhoras em uma       mercearia
e perguntei se tinham visto alguma vez
algo além da reluzente saia de tafetá azul.

Elas riram,
riram de rolar no chão
e disseram em coro:                              “Olhe para a flor,
é onde localizam-se os olhos”.

“Aqui não tem flor” – respondi desconcertada.

“Então, olhe para as montanhas” – sorriram

“Como?. Só vejo uma padaria fechada.” – retruquei nervosamente.

“Na árvore pode-se ver o nariz
e ouvir a respiração” – finalizaram
enquanto fechavam as portas da loja.

Pedi para elas ficarem mais um pouco.
Pedido negado.

Não havia mais nada a ser feito,
meu coração doía e suava a cântaros.
Chorei um pouco antes delas irem embora,
engoli um gole de cachaça
e peguei o primeiro ônibus que apareceu.

Por não saber como fugir, persiste na insensatez.

Corpos-prisão
sozinhos no mundo,
vagando por aí afora.
Seguindo adiante
em noites regadas
a álcool,
sexo
e des
amores.

Tocando os vícios.
Essa entidade mística
que descansa
nos copos
e
nos corpos
embaralhando-se
um
no outro
na cama
numa luta clandestina
em que o árbitro
é o desejo.

Corpos-prisão
feitos de carne
e osso,
detentos de um crime
não anunciado,
duelando contra
a edificação
corpórea
em madrugadas
dançantes
no limiar
entre a vida
e a morte.

Tocando as dores.
Esse cão sujo
e superestimado
que devora
das beiradas
as
entranhas
a áurea
humana,
deixando-nos
nus
e entregues
a loucura.

Corpos-prisão
limitados pelas palavras
Buscando desesperadamente
encontrar
o significado das coisas
não nas próprias
em excelência.
Aquele que se realiza
no raso
e nele existe
perecendo
até o
derradeiro suspiro.