Epílogo

Um nó na garganta,
assim como o encontro semanal
de todas as minhas angústias,
– elas dialogam entre si
e riem das minhas inconsistências –
um golpe desferido
contra o equilíbrio,
jogo de adedanha
com a solidão.

”O que existe do outro lado?”.
Ela se pergunta
a partir de uma lógica conformada
que apreende tudo
em preto e branco.

Preto e branco:
cores tão corriqueiras,
ela apreciava azul piscina,
verde,
lilás,
mas a vida não é sobre
o quanto de pedras preciosas
você coleciona,
é sobre ser tão amargo quanto
café solúvel sem açúcar,
sorvido a contra gosto
por não haver outra opção.

”Estado emocional leite molico
chega a ser sanguinário,
cada sorriso fabricado em série
torna-se um punhal
para quem o vê”,
completava a razão.

Os pinos desajustados
possuem charme não revelado.
Deve-se aumentar o marketing
da melancolia consciente,
da existência em combustão,
do olhar quente e distante
querendo engolir o mundo,
das fibras do corpo
como matagal em chamas.

” A tristeza é quente,
têm cheiro de cereja
e gosto de chocolate”,
diz a sinestesia desordenando
a tabuada da realidade concreta
e fazendo coro aos sinais
de desajuste contido nos ossos.

A tese foi confirmada
por meio de inúmeras
conferências anuais
entre as angústias:
ela precisava limar
alguns dentes da felicidade,
mesmo que isso lhe custasse
a calmaria,
pois cessar fogo
seria o mesmo que
suicídio assistido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s