Rio de janeiro, 25 de março de 2015

Dessaudosa ausência.
Tragédia das coisas
não vividas
fugidas à galope
num quadro surrealista.

Lacunas datilografam
cartas pálidas
do teria sido
num luto verbalista.

Metalinguística do dissabor.
Sons perdem a cor.

Sobra-se a prosaica mudez
a senilidade
do desgosto
orbitando em volta do centro
do olho
o etéreo em pedra
a alma
em constante queda
cartas jamais enviadas
com borboletas embalsamadas.

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A irmandade

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Ato I

”Quem seguir as regras da irmandade cuidadosamente não se verá mais acometido pelas possessões da escrita. Basta estar participando das reuniões presenciais, ouvindo as fitas k7 com a literatura e evitando a primeira escrita que a mudança de caráter ocorrerá aos poucos. É fundamental admitir a impotência e a perda de domínio sobre a sua vida para que o programa funcione.

Não se esqueça, os lugares e as pessoas devem ser mudados. Se afaste das papelarias e saraus, bem como de escritores, poetas ou amantes das palavras. Reconhecer que o seu comportamento é alterado por completo ao escrever é o primeiro passo no processo de recuperação. ”

Domingo: 19h00min – Ônibus 397

A descoberta de que o meu desequilíbrio amortecia igual xilocaína invadia de imediato trazendo desolamento profundo, porque no final das contas, a terrível visualização do redemoinho de tormentos vindo mais tarde, revolvendo tudo ao redor, desespera tanto quanto os estados de consciência alterados por drogas. As células convertem-se em homenzinhos saltitando e gargalhando debilmente das vãs tentativas em alcançar à serenidade e o corpo torna-se uma diligência dirigida por forças assombrosas que nunca bocejam e sempre prosseguem a carruagem adiante.

A que trapo de serenidade recorrerei para envolver a mente? Os segundos representam o depósito de minutos, o estoque de horas, o excedente de anos na busca em apaziguar a luta travada dentro de mim. Os amores quer sejam de carne e osso, quer sejam imaterial, perderam o seu brilho, e me vejo afundando lentamente, sem empreender nenhum esforço para reverter o sentimento angustiante de assistir a própria morte.

”Um momento. . . ”, eu dizia a todos enquanto erguia o dedo indicador, como querendo congelar os acontecimentos e organizar os cenários ao redor à minha maneira, acreditando ser possível comer a vida pelas beiradas, sem se permitir a queimar a língua caso seja necessário. E sempre é. Mas tentava manter as coisas sob controle, mesmo sabendo que o destino estava sem freio, correndo a mil por hora num túnel fosforescente e vazio. Por que então nadar contra a maré? Bastava recostar a cabeça no banco e relaxar.

A brisa fria entrava pela janela do ônibus sem pedir permissão e cochichava que o seu sopro gélido deveria ser recebido com bom grado. Meus olhos ardiam em febre, os dedos tamborilavam o ar, as mãos tremiam vagarosamente. ”Preciso urgentemente escrever. . . ”, concluí nervosamente conforme roía as peles do dedo e contemplava as luzes da lua banhando os telhados das casas. Quem sabe roer e observar profundamente a paisagem através da janela permitisse encontrar soluções agilmente, ou só me tornava um lunático em transe.

Subitamente começamos a sacolejar dentro daquela marmita de metal andante e eu, cansado e impaciente, praguejava silenciosamente a existência por não ter colocado o caderno dentro da bolsa. Como pude tê-lo esquecido em casa? Perguntei-me crendo ser algo extremamente óbvio. Era tudo ou nada, algo precisava ser feito e num ato desesperado percorri as fileiras do ônibus perguntando energicamente aos passageiros: ”Tem folha?” Naqueles instantes me senti no corpo de outra pessoa, como se estivesse estudando com olhares exclamativos um animal exótico e se perguntando: ”Que porra é essa? Quais são seus mecanismos?”. Afinal, aquele cara louco e tremendo igual porco indo a direção ao abate poderia ser tudo, menos eu.

Uma universitária comovida estendeu os braços e jogou punhados de folhas em minhas mãos. O que durante longos segundos fiquei parado observando-a, não crendo no que tinha sido ofertado, mas faminto em puxar logo.

– Não fique me olhando tanto. Simplesmente pegue e faça o que tiver de ser feito. – declarou a jovem semi-sorridente.

– Oh! Farei, farei, farei. – respondi sapateando até o assento.

O começo da minha história e o que fundamentalmente estilhaçou a sanidade pode ser entendido como vida pelas planícies brancas, com a grande diferença que mãos em formato C deslizam nelas, e não pés. E aqui é o fim da linha. Quando decidi entrar de cabeça nessa viagem sem volta que é a escrita o mundo foi caindo na sincronia rápida de peças de dominó, e me vi numa sexta feira esvaziando garrafas de vinho e escrevendo desesperadamente que nem um drogado no início do relacionamento viciado por sua amada, rodopiando pra lá e pra cá com o seu novo caso.

Ato II

‘’ Escritores anônimos é uma irmandade de homens e mulheres e visa por uma existência plena e produtiva através do abandono a compulsão pela escrita.

Ponto chave no processo de recuperação: reconhecer que a escrita enfraquece e impede a autonomia.

Enxergar a própria decadência não é fácil, certo? É preciso reconhecer a total impotência perante a criação poético-literária, a derrota. Olhe no espelho e diga a si mesmo: reconheço que a escrita me torna fraco e impede que eu seja autônomo. O maior engano é acreditar que ainda há saída, que se pode escrever sob circunstâncias restritas, assim como alcoólatras pensam a respeito do consumo de álcool. Reconheça por completo a sua derrota, não fuja dela, é preciso compreender o quanto é tóxico continuar escrevendo, se não jamais encontrará uma existência plena e feliz. ‘’

Segunda-feira. 18:53 –  Irmandade dos escritores compulsivos anônimos.

– Ao cair da noite escutei corpos inquietos inflamando, preenchendo folhas de papel igual alcoólatras em crise de abstinência, abafando o grito em canetas esferográficas de má qualidade. Escutei o tilintar de palavras imprecisas, torneiras de palavras desordenadas jorrando dentro de cérebros irrequietos e inundando cadernos envelhecidos pelo tempo. Avistei fagulhas de fogo pulando nas figuras de linguagem e saltando entre os globos oculares dos que as escreviam. Por isso, meus amigos, quero interromper minhas atividades abandonando tal atividade ilícita e alucinógena. –  era a fala de Kim, o dependente anônimo.

– Obrigado pela partilha, Kim. Seu relato, assim como o de nossos companheiros e companheiras, é extremamente importante. Precisamos nos unir mais do que nunca contra nossos impulsos criativos e não escrever. Sabem por quê? Alguém pode responder isso por mim?.

– Eu posso! – tinha respondido Joana com olhar altivo – . Sempre escrevi para tentar acariciar uma mente destruída pela experiência de vida. Em vão. ‘’Por que em vão, Joana?’’, escritores apaixonados iriam me perguntar. Pois bem, direi o motivo. Passei várias noites olhando a movimentação da rua pela janela e escrevendo contos e poesias absurdas com minha caneta hidrográfica ponta fina. Confesso, me considero um fracasso nisto.Apesar disso, lhes digo, não engatei odisseia contra essa atividade por falta de confiança no meu taco, mas por ter escrito para tornar o meu mundo interno melhor, e o único diagnóstico feito foi: continuo me queimando com cigarro e me drogando, a escrita não me salvou e cada ferida do meu corpo abre quando me recordo disso.

– Obrigada, companheira Joana. Agrada-me ouvir um relato tão sincero e sem pudores, faz-se necessário perseguir este tipo de desprendimento, é imprescindível no processo de cura. Agora que ouvimos o relato de Joana, passo a bola para o próximo, podem se abrir, companheiros. Sei o quanto isto é difícil, mas nossas feridas serão aliviadas ao passo que compartilhamos e conversamos sobre os problemas oriundos da impotência perante a escrita.

Durante os relatos de Joana e Kim, arrependi-me de estar ali dentro, com homens e mulheres amargurados num galpão antigo, sentado num caixote de madeira em um ambiente de aspecto inóspito, mas tudo indicava que era preciso falar, era a minha vez, só que somente eu sabia disso.  Não havia mais por que permanecer quieto, implodi minhas limitações a fala e comecei a discursar em uma só vez, formando blocos de palavras que cada vez mais acumulavam-se entre si, moldando fileiras de blocos cada vez maiores.

– Começou como um sonho, eu atravessava a adolescência e tudo se apresentava embaçado, assim como para todos os jovens descobrindo as regras de um mundo absolutamente novo. Não queria regras, queria me libertar, por isso escrevia e na verdade ainda quero me libertar, ainda quero escrever. Eu escrevia durante as aulas, escrevia nos intervalos no recreio, escrevia após a aula, sentado nos bancos do pátio, escrevia sempre e em toda ocasião que podia. Minha relação com a família era péssima, meu pai era um beberrão psicótico e violento, minha mãe passiva e trabalhadora, eram tempos difíceis, eram tempos difíceis.  – finalizei segurando a lágrima.

Não poderia continuar, a ideia daquele grupo era completamente louca, absurda, aquelas pessoas ali dentro não sabiam lidar com os próprios monstros e culpavam a escrita por isso, encaravam-na como uma entidade divina que deveria dar conta das suas inconsistências. Ergui-me, apertei os passos sem voltar o rosto para trás e desci as escadas de madeira do galpão. Ao avistar a entrada, parei na fachada e olhei para o relógio, eram 18h55, as papelarias fechavam as 19h00min. Corri entre as pessoas, precisava escrever hoje e em casa não tinha nenhum papel, e eu queria escrever aquela noite toda para me redimir com o processo criativo, para me redimir comigo mesmo.

A simetria do acaso

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. Uma tarde. Um encontro. Um bar. Cecília e Diego. Entre eles, uma mesa. Diego bebia a cerveja calado, Cecília queria dizer-lhe algo, mas faltava coragem. Diego sorria enquanto sugava a prestações a cevada, e quando não estava bebendo, passava os dedos na borda da caneca para passar o tempo. A luz emanada pelo sorriso de Diego cegava momentaneamente Cecília, raios de sol cintilantes saindo do rosto. ”É o sorriso mais lindo da cidade”, concluía hipnotizada, e constrangida perguntava-se: Diego podia escutar os seus pensamentos?.

. Ela queria aproximar um estetoscópio do coração dele, examinar se batia tão forte quanto o dela, mas limitava-se a investigá-lo, desfiando pétalas com o olho num jogo de bem me quer/ mal me quer a cada movimento executado por ele. Limitou-se a sorrir também. Não havia nada a ser feito, o indizível tomava conta de si.
Uma batalha. Razão e sensibilidade. Uma guerra de nervos. O silêncio, interrompido por uma atitude inesperada, Diego levantou, colocou sua cadeira ao lado de Cecília e alisou suas pernas carinhosamente.

– Escuta! – ela disse afundando as mãos entre os cabelos. Se você soubesse que daqui a um minuto
perderia a voz, qual seria a última frase dita?.
– Não diria nada.
– Oras, mas por quê?.
– A imprecisão linguística. Não seria exato. Estaria aprisionado aquela fala para sempre. O fardo
da inexatidão me perseguiria, anos depois iria acordar e descobrir que poderia ter dito de uma
forma diferente ou simplesmente falado outra coisa. Seria uma tortura sem fim – discursou enquanto colocava fogo na ponta do cigarro.
– Situações definitivas nos obrigam encontrar a plenitude. Nem sequer ensaiamos, nem sequer.
– Justamente. Por isso, a meu ver, a não ação seria o mais apropriado.
– Talvez faça sentido.

.  Uma tarde. Um encontro. Um bar. Cecília e Diego. Duas cabeças avistam o horizonte. Pano amarelo fatigando as retinas. Ao redor, falatórios emitem o mesmo som universal de alegria ou enfado. ”Precisa escolher-se um lado, o vazio estimado ou não”, pensa Diego, ” embora os pés encontrem-se no limiar dos dois: o estorvo e a ousadia”. Cecília observava ele silenciosamente e concluía que só a arquitetura do seu quarto o conhecia, já que o semblante só transpirava neblina. Diego seguia compenetrado, sorrindo e olhando artificialmente através dos olhos de Cecília. Ela sentia-se virtualizada, havia uma tela entre ambos, obstruindo relações reais. Da ausência de ruído, a voz de Cecília irrompeu, falando cuidadosamente:

– As vezes me sinto assim, sabe?.
– De que jeito?.
– Como um vírus vivendo uma semi-vida. Eu olho pras bombas de chocolate resplandecendo no mostruário das confeitarias e me pergunto se elas são mais reais do que eu.
– Sentir-se externa ao mundo é um perigo, nunca sabe-se aonde isso vai dar.
– No final de todo pensamento reside um penhasco ou um galho, todos tem o seu penhasco e galho reservado.
– Então, segure-se no galho antes de fazer alguma merda.
– Em meio a tudo isso o belo poderia ser o suficiente, mas nunca é, né?.
– Há quem veja beleza no caos, apesar disso não me agradar nem um pouco – falou enquanto esticava o pescoço para a janela – . Que droga, começou a chover! Preciso ir!. Amanhã nos encontramos no mesmo horário de sempre? – perguntou, erguendo-se e colocando a pasta embaixo do braço.
– Oh, claro! – Cecília respondeu, regressando de um transe instantâneo.
– E no próximo encontro, conversaremos sobre o que?.
– Faremos que nem hoje: basta sentarmos, pedirmos bebida, você fuma, eu te olho durante longos segundos e o tema surgirá naturalmente.
– Parece simples desse jeito.
– Mas é, não existe mistério, é a simetria do acaso.                                                                   .

Diego abraçou Cecília, atravessou o bar e sumiu em meio a multidão de corpos e vozes. Cecília percebeu que havia sobrado um copo de cerveja na mesa, ela não gostava de beber, mas precisava esquecer que suas mãos tremiam e sua testa borbulhava de dor. Havia alguma conexão estranha entre testas doendo e tristeza, deduziu Cecília com toda a sabiedade peculiar que possuía.

As vozes que falam comigo
elas riem
elas pensam
elas choram
elas gritam
elas rasgam minha cabeça.

Inauguradas num estrondo de pratos
erguem os olhos sobre mim num duelo invisível.
Elas caem como mangas na telha,
acordam-me num sobressalto dizendo
” Quero sair de você ”

As vozes que falam comigo fazem cálculos matemáticos,
sabem escrever,
frequentam tabacarias,
nos domingos vão a praça com os filhos,
fazem profecias,
velam o meu sono enquanto durmo.

Essas multidões de vozes
que regressam aos tempos de infância me são íntimas,
velhas mães enlouquecidas,
viúvas de um estado de alma falecido.
Elas esperam os seus maridos
desde quando foram concebidas.

Essas vozes,
elas querem ser paridas,
sentar ao meu lado,
beber café e me estudar de perto.
Quem sabe me abraçar ou simplesmente me insultar.

Nunca esquecerei do dia
em que as ouvi pela primeira vez,
o exato momento em que pensar e falar
fundiram-se numa coisa só
e o golpe foi sendo desferido
lentamente ano após ano.