As vozes que falam comigo
elas riem
elas pensam
elas choram
elas gritam
elas rasgam minha cabeça.

Inauguradas num estrondo de pratos
erguem os olhos sobre mim num duelo invisível.
Elas caem como mangas na telha,
acordam-me num sobressalto dizendo
” Quero sair de você ”

As vozes que falam comigo fazem cálculos matemáticos,
sabem escrever,
frequentam tabacarias,
nos domingos vão a praça com os filhos,
fazem profecias,
velam o meu sono enquanto durmo.

Essas multidões de vozes
que regressam aos tempos de infância me são íntimas,
velhas mães enlouquecidas,
viúvas de um estado de alma falecido.
Elas esperam os seus maridos
desde quando foram concebidas.

Essas vozes,
elas querem ser paridas,
sentar ao meu lado,
beber café e me estudar de perto.
Quem sabe me abraçar ou simplesmente me insultar.

Nunca esquecerei do dia
em que as ouvi pela primeira vez,
o exato momento em que pensar e falar
fundiram-se numa coisa só
e o golpe foi sendo desferido
lentamente ano após ano.

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