A simetria do acaso

Bar_by_onesummerago

. Uma tarde. Um encontro. Um bar. Cecília e Diego. Entre eles, uma mesa. Diego bebia a cerveja calado, Cecília queria dizer-lhe algo, mas faltava coragem. Diego sorria enquanto sugava a prestações a cevada, e quando não estava bebendo, passava os dedos na borda da caneca para passar o tempo. A luz emanada pelo sorriso de Diego cegava momentaneamente Cecília, raios de sol cintilantes saindo do rosto. ”É o sorriso mais lindo da cidade”, concluía hipnotizada, e constrangida perguntava-se: Diego podia escutar os seus pensamentos?.

. Ela queria aproximar um estetoscópio do coração dele, examinar se batia tão forte quanto o dela, mas limitava-se a investigá-lo, desfiando pétalas com o olho num jogo de bem me quer/ mal me quer a cada movimento executado por ele. Limitou-se a sorrir também. Não havia nada a ser feito, o indizível tomava conta de si.
Uma batalha. Razão e sensibilidade. Uma guerra de nervos. O silêncio, interrompido por uma atitude inesperada, Diego levantou, colocou sua cadeira ao lado de Cecília e alisou suas pernas carinhosamente.

– Escuta! – ela disse afundando as mãos entre os cabelos. Se você soubesse que daqui a um minuto
perderia a voz, qual seria a última frase dita?.
– Não diria nada.
– Oras, mas por quê?.
– A imprecisão linguística. Não seria exato. Estaria aprisionado aquela fala para sempre. O fardo
da inexatidão me perseguiria, anos depois iria acordar e descobrir que poderia ter dito de uma
forma diferente ou simplesmente falado outra coisa. Seria uma tortura sem fim – discursou enquanto colocava fogo na ponta do cigarro.
– Situações definitivas nos obrigam encontrar a plenitude. Nem sequer ensaiamos, nem sequer.
– Justamente. Por isso, a meu ver, a não ação seria o mais apropriado.
– Talvez faça sentido.

.  Uma tarde. Um encontro. Um bar. Cecília e Diego. Duas cabeças avistam o horizonte. Pano amarelo fatigando as retinas. Ao redor, falatórios emitem o mesmo som universal de alegria ou enfado. ”Precisa escolher-se um lado, o vazio estimado ou não”, pensa Diego, ” embora os pés encontrem-se no limiar dos dois: o estorvo e a ousadia”. Cecília observava ele silenciosamente e concluía que só a arquitetura do seu quarto o conhecia, já que o semblante só transpirava neblina. Diego seguia compenetrado, sorrindo e olhando artificialmente através dos olhos de Cecília. Ela sentia-se virtualizada, havia uma tela entre ambos, obstruindo relações reais. Da ausência de ruído, a voz de Cecília irrompeu, falando cuidadosamente:

– As vezes me sinto assim, sabe?.
– De que jeito?.
– Como um vírus vivendo uma semi-vida. Eu olho pras bombas de chocolate resplandecendo no mostruário das confeitarias e me pergunto se elas são mais reais do que eu.
– Sentir-se externa ao mundo é um perigo, nunca sabe-se aonde isso vai dar.
– No final de todo pensamento reside um penhasco ou um galho, todos tem o seu penhasco e galho reservado.
– Então, segure-se no galho antes de fazer alguma merda.
– Em meio a tudo isso o belo poderia ser o suficiente, mas nunca é, né?.
– Há quem veja beleza no caos, apesar disso não me agradar nem um pouco – falou enquanto esticava o pescoço para a janela – . Que droga, começou a chover! Preciso ir!. Amanhã nos encontramos no mesmo horário de sempre? – perguntou, erguendo-se e colocando a pasta embaixo do braço.
– Oh, claro! – Cecília respondeu, regressando de um transe instantâneo.
– E no próximo encontro, conversaremos sobre o que?.
– Faremos que nem hoje: basta sentarmos, pedirmos bebida, você fuma, eu te olho durante longos segundos e o tema surgirá naturalmente.
– Parece simples desse jeito.
– Mas é, não existe mistério, é a simetria do acaso.                                                                   .

Diego abraçou Cecília, atravessou o bar e sumiu em meio a multidão de corpos e vozes. Cecília percebeu que havia sobrado um copo de cerveja na mesa, ela não gostava de beber, mas precisava esquecer que suas mãos tremiam e sua testa borbulhava de dor. Havia alguma conexão estranha entre testas doendo e tristeza, deduziu Cecília com toda a sabiedade peculiar que possuía.

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