A irmandade

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Ato I

”Quem seguir as regras da irmandade cuidadosamente não se verá mais acometido pelas possessões da escrita. Basta estar participando das reuniões presenciais, ouvindo as fitas k7 com a literatura e evitando a primeira escrita que a mudança de caráter ocorrerá aos poucos. É fundamental admitir a impotência e a perda de domínio sobre a sua vida para que o programa funcione.

Não se esqueça, os lugares e as pessoas devem ser mudados. Se afaste das papelarias e saraus, bem como de escritores, poetas ou amantes das palavras. Reconhecer que o seu comportamento é alterado por completo ao escrever é o primeiro passo no processo de recuperação. ”

Domingo: 19h00min – Ônibus 397

A descoberta de que o meu desequilíbrio amortecia igual xilocaína invadia de imediato trazendo desolamento profundo, porque no final das contas, a terrível visualização do redemoinho de tormentos vindo mais tarde, revolvendo tudo ao redor, desespera tanto quanto os estados de consciência alterados por drogas. As células convertem-se em homenzinhos saltitando e gargalhando debilmente das vãs tentativas em alcançar à serenidade e o corpo torna-se uma diligência dirigida por forças assombrosas que nunca bocejam e sempre prosseguem a carruagem adiante.

A que trapo de serenidade recorrerei para envolver a mente? Os segundos representam o depósito de minutos, o estoque de horas, o excedente de anos na busca em apaziguar a luta travada dentro de mim. Os amores quer sejam de carne e osso, quer sejam imaterial, perderam o seu brilho, e me vejo afundando lentamente, sem empreender nenhum esforço para reverter o sentimento angustiante de assistir a própria morte.

”Um momento. . . ”, eu dizia a todos enquanto erguia o dedo indicador, como querendo congelar os acontecimentos e organizar os cenários ao redor à minha maneira, acreditando ser possível comer a vida pelas beiradas, sem se permitir a queimar a língua caso seja necessário. E sempre é. Mas tentava manter as coisas sob controle, mesmo sabendo que o destino estava sem freio, correndo a mil por hora num túnel fosforescente e vazio. Por que então nadar contra a maré? Bastava recostar a cabeça no banco e relaxar.

A brisa fria entrava pela janela do ônibus sem pedir permissão e cochichava que o seu sopro gélido deveria ser recebido com bom grado. Meus olhos ardiam em febre, os dedos tamborilavam o ar, as mãos tremiam vagarosamente. ”Preciso urgentemente escrever. . . ”, concluí nervosamente conforme roía as peles do dedo e contemplava as luzes da lua banhando os telhados das casas. Quem sabe roer e observar profundamente a paisagem através da janela permitisse encontrar soluções agilmente, ou só me tornava um lunático em transe.

Subitamente começamos a sacolejar dentro daquela marmita de metal andante e eu, cansado e impaciente, praguejava silenciosamente a existência por não ter colocado o caderno dentro da bolsa. Como pude tê-lo esquecido em casa? Perguntei-me crendo ser algo extremamente óbvio. Era tudo ou nada, algo precisava ser feito e num ato desesperado percorri as fileiras do ônibus perguntando energicamente aos passageiros: ”Tem folha?” Naqueles instantes me senti no corpo de outra pessoa, como se estivesse estudando com olhares exclamativos um animal exótico e se perguntando: ”Que porra é essa? Quais são seus mecanismos?”. Afinal, aquele cara louco e tremendo igual porco indo a direção ao abate poderia ser tudo, menos eu.

Uma universitária comovida estendeu os braços e jogou punhados de folhas em minhas mãos. O que durante longos segundos fiquei parado observando-a, não crendo no que tinha sido ofertado, mas faminto em puxar logo.

– Não fique me olhando tanto. Simplesmente pegue e faça o que tiver de ser feito. – declarou a jovem semi-sorridente.

– Oh! Farei, farei, farei. – respondi sapateando até o assento.

O começo da minha história e o que fundamentalmente estilhaçou a sanidade pode ser entendido como vida pelas planícies brancas, com a grande diferença que mãos em formato C deslizam nelas, e não pés. E aqui é o fim da linha. Quando decidi entrar de cabeça nessa viagem sem volta que é a escrita o mundo foi caindo na sincronia rápida de peças de dominó, e me vi numa sexta feira esvaziando garrafas de vinho e escrevendo desesperadamente que nem um drogado no início do relacionamento viciado por sua amada, rodopiando pra lá e pra cá com o seu novo caso.

Ato II

‘’ Escritores anônimos é uma irmandade de homens e mulheres e visa por uma existência plena e produtiva através do abandono a compulsão pela escrita.

Ponto chave no processo de recuperação: reconhecer que a escrita enfraquece e impede a autonomia.

Enxergar a própria decadência não é fácil, certo? É preciso reconhecer a total impotência perante a criação poético-literária, a derrota. Olhe no espelho e diga a si mesmo: reconheço que a escrita me torna fraco e impede que eu seja autônomo. O maior engano é acreditar que ainda há saída, que se pode escrever sob circunstâncias restritas, assim como alcoólatras pensam a respeito do consumo de álcool. Reconheça por completo a sua derrota, não fuja dela, é preciso compreender o quanto é tóxico continuar escrevendo, se não jamais encontrará uma existência plena e feliz. ‘’

Segunda-feira. 18:53 –  Irmandade dos escritores compulsivos anônimos.

– Ao cair da noite escutei corpos inquietos inflamando, preenchendo folhas de papel igual alcoólatras em crise de abstinência, abafando o grito em canetas esferográficas de má qualidade. Escutei o tilintar de palavras imprecisas, torneiras de palavras desordenadas jorrando dentro de cérebros irrequietos e inundando cadernos envelhecidos pelo tempo. Avistei fagulhas de fogo pulando nas figuras de linguagem e saltando entre os globos oculares dos que as escreviam. Por isso, meus amigos, quero interromper minhas atividades abandonando tal atividade ilícita e alucinógena. –  era a fala de Kim, o dependente anônimo.

– Obrigado pela partilha, Kim. Seu relato, assim como o de nossos companheiros e companheiras, é extremamente importante. Precisamos nos unir mais do que nunca contra nossos impulsos criativos e não escrever. Sabem por quê? Alguém pode responder isso por mim?.

– Eu posso! – tinha respondido Joana com olhar altivo – . Sempre escrevi para tentar acariciar uma mente destruída pela experiência de vida. Em vão. ‘’Por que em vão, Joana?’’, escritores apaixonados iriam me perguntar. Pois bem, direi o motivo. Passei várias noites olhando a movimentação da rua pela janela e escrevendo contos e poesias absurdas com minha caneta hidrográfica ponta fina. Confesso, me considero um fracasso nisto.Apesar disso, lhes digo, não engatei odisseia contra essa atividade por falta de confiança no meu taco, mas por ter escrito para tornar o meu mundo interno melhor, e o único diagnóstico feito foi: continuo me queimando com cigarro e me drogando, a escrita não me salvou e cada ferida do meu corpo abre quando me recordo disso.

– Obrigada, companheira Joana. Agrada-me ouvir um relato tão sincero e sem pudores, faz-se necessário perseguir este tipo de desprendimento, é imprescindível no processo de cura. Agora que ouvimos o relato de Joana, passo a bola para o próximo, podem se abrir, companheiros. Sei o quanto isto é difícil, mas nossas feridas serão aliviadas ao passo que compartilhamos e conversamos sobre os problemas oriundos da impotência perante a escrita.

Durante os relatos de Joana e Kim, arrependi-me de estar ali dentro, com homens e mulheres amargurados num galpão antigo, sentado num caixote de madeira em um ambiente de aspecto inóspito, mas tudo indicava que era preciso falar, era a minha vez, só que somente eu sabia disso.  Não havia mais por que permanecer quieto, implodi minhas limitações a fala e comecei a discursar em uma só vez, formando blocos de palavras que cada vez mais acumulavam-se entre si, moldando fileiras de blocos cada vez maiores.

– Começou como um sonho, eu atravessava a adolescência e tudo se apresentava embaçado, assim como para todos os jovens descobrindo as regras de um mundo absolutamente novo. Não queria regras, queria me libertar, por isso escrevia e na verdade ainda quero me libertar, ainda quero escrever. Eu escrevia durante as aulas, escrevia nos intervalos no recreio, escrevia após a aula, sentado nos bancos do pátio, escrevia sempre e em toda ocasião que podia. Minha relação com a família era péssima, meu pai era um beberrão psicótico e violento, minha mãe passiva e trabalhadora, eram tempos difíceis, eram tempos difíceis.  – finalizei segurando a lágrima.

Não poderia continuar, a ideia daquele grupo era completamente louca, absurda, aquelas pessoas ali dentro não sabiam lidar com os próprios monstros e culpavam a escrita por isso, encaravam-na como uma entidade divina que deveria dar conta das suas inconsistências. Ergui-me, apertei os passos sem voltar o rosto para trás e desci as escadas de madeira do galpão. Ao avistar a entrada, parei na fachada e olhei para o relógio, eram 18h55, as papelarias fechavam as 19h00min. Corri entre as pessoas, precisava escrever hoje e em casa não tinha nenhum papel, e eu queria escrever aquela noite toda para me redimir com o processo criativo, para me redimir comigo mesmo.

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