Malabarismo linguístico?.
Não!.
Não nesta noite!
não nesta hora!.

Dividida
fragmentada.

Uma parte do corpo no assento do ônibus te encarando pagar a passagem, e a outra no quarto rememorando o ensaio de fingir não te querer.
Ensaio que só abrevia o conflito,
abafando o que foi dito e redito,
que agora o lirismo na forma de poesia
cumpre função de mertiolate,
mas só arde,
escuta: só arde.

Que nos venham palavras e versos,
mas que jamais estejam divorciadas do afeto,
pois somos a manifestação de duas almas que ainda vivem,
ainda sentem,
embora os destinatários sejam completamente diferentes.

Enviar milhares de cartas
talvez seja um joguete coerente,
porém não tema,
ainda há de enlouquecer em cima delas
e molhar o vidro das vistas.

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O semáforo e as estrelas,
talvez só isso sobrou dentro da minha cabeça.
Um desajuste ocular que só me permite encarar
o que está acima da minha cabeça.
Seguro o sono enquanto o ruído do chinelo machuca os ouvidos
e fazem com que minhas pernas se mexam tão rápido,
numa melancolia faminta de um corpo que quer fugir de si mesmo
e fazer-se desfecho
que o mistério da existência ainda não finda.

O semáforo e as estrelas,
talvez só nisso eu veja beleza
quando estico o pescoço ao esperar o sinal abrir
e espio timidamente o número de mágica que a migalha do céu apresenta,
mas jamais ousa ensinar seus truques,
jamais pretende contar seus desígnios,
se é que exista.
Oras, pois me calo e assisto,
numa contemplação adormecida,
e penso nos mecanismos que compõem o belo,
o cômico,
o trágico,
o enfadonho,
mesmo sabendo que não há,
mesmo sabendo que definho no jogo de conceitos.

O semáforo e as estrelas,
talvez só isso,
talvez só nisso
quanto estico e me deparo,
quando não findo
e me calo
o silêncio de cortinas fechadas.

Semáforo