Tantas vezes comedida.
Tantas vezes apatia.
Tantas vezes nas partidas um naco do coração enrolado num pedaço de jornal para constatar que um dia ele existiu.

Tantas vezes o céu explodindo em cores num quadro pintado por mãos bêbadas
e a loucura expiando pecados num tribunal estéril.

É poesia mal comida.
Comida mal lida.

É a iminente rasteira
e os olhos estrangulados beijando o chão
como num pacto de paz com o irreversível.

Tantas vezes vírus vivendo meia vida,
parasita de paraísos artificiais.

Tantas vezes o inconcluso
dia após dia
num jogo pueril de ser ou não ser.

Se vestidos falassem eles se lamentariam, mas vestidos não falam, então nada diriam.

O vestido pegou fogo suavemente,
o desespero escorria entre o pano.
Não houve dor,
só silêncio.
O fogo não dançou sob a pele.

As feridas do vestido estavam expostas e conversavam comigo.

Por vezes, a vontade de queimar ressurgia.

E nenhum poeta estará a salvo, meu amigo.

Nem os poetas.
Muito menos eles.
Muito menos eles.