Caderno vermelho

Um homem doente me olhava,

me olhava.
Seus olhos emanavam maluquice,
maluquice com odor de esperteza.

Ele estava lá,
eu também.
Por motivos absolutamente diferentes.
Mas, estávamos no mesmo barco
e embriagados de lucidez.

Ele disse:
” Foi injusto te colocarem aqui”

Talvez fosse.
Talvez fosse.

Talvez não fosse.
Talvez não fosse.

Os remédios,
a cama de ferro contra a porta,
a inevitável dor que unia todos nós num único lugar.

Os tristes fatos.

Um homem doente me olhava
e me dava um número de telefone
num apelo suplicante.

Talvez um dia ele também estivesse fora daquela roubada e sua irmã pudesse ajudá-lo.
Mas não,
não poderia.
Só ele mesmo poderia se ajudar.

Cada um suporta seu fardo.

Ou não.
Ou não.

Essas rasteiras são fundamentais,
diziam.
Pra aprender qualquer coisa,
qualquer coisa.
Por motivos absolutamente diferentes.

O número dela ficou perdido no caderno vermelho

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Praça Elias Jabour, 76

Hart crane no mar
e onde haveria eu de estar?

Cosendo quimeras numa cama
entre o quarto e a sala de estar?

Não se sabe.

Por ora, implodem-se os enigmas,
as dúvidas,
as ideias que não cabem mais.

Por ora, descobre-se que a linguagem é a escapatória,
mas o perigo é iminente.

A morte está a espreita pelo gorduroso excesso de existir.