O lamento de uma bicicleta

 

Aquela bicicleta tinha um olhar triste.

Ela refletia sobre o corpo em chamas
que estava sob si,
que cortava o vento
em questão de segundos,
que sorria sem razão.

Aquela bicicleta tinha um olhar lânguido.

Sem autonomia ela tolerava a liberdade
de quem nela subiu.
Sem protestar ela seguia em frente
enquanto quem a guiava sentia a alma se dissolver.

Uma fuga.
Um desencontro.
Uma partida.

Aquela bicicleta era uma droga e ela própria sabia disto.

O corpo era maior e ela era menor,
só que a circunstância
ligava o corpo a ela e ela ao corpo.

E como numa fatalidade das coisas incompreendidas houve a despedida.

 

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