Meditação sobre o passado e o nada

Sucede que,
toda vez que chove me ponho a pensar
e pensar é um choro sem lágrimas.

A tranquilidade das gotas caindo do céu,
me faz meditar.

Ruído de serenidade.

Qualquer trivialidade torna-se cativante nos dias de chuva.
A roupa no varal.
O mato assustado se mexendo com o toque do vento.
A antena parabólica.

Mas,
perco a razão ao pensar.
Entristece-me o pesar que ainda não conheci
e a todo momento sou atravessada,
sinto o fio da navalha.

Essa ferida fechada inaugura as dores que ainda não vivi.

Irei sentir.

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Marlene

Ah, Marlene!
A doçura do teu olhar perturbado não me sai da memória.
Naqueles dias,
dividíamos as tristezas igual mendigos repartindo pães.

Ah, Marlene!
Os remédios me dopavam e eu só queria apagar,
mas você me tirava da cama para ver a luz do sol.

Irmã de derrotas.

Eu não sabia o que aquilo tudo significava,
nem o peso daquela estadia,
mas você sim.

Jamais esquecerei da partida.

As suas lágrimas,
você abreviando o adeus
enquanto deitava na cama
e se protegia com o cobertor,
me dizendo para ir embora logo.

Ah, Marlene!
O mundo é obtuso demais para nós,
em tempo algum compreenderiam a nossa sensibilidade.
Nós estamos em combustão,
eles não.

A nossa desesperança e medo
é o sangue deles,
é o que os mantêm vivos.

Mas, o teu sorriso vai pairar no céu
e a explosão do teu humor
será a música dos dias,
minha velha amiga.

Sequestro em Cleveland

Eu nunca discuto com os meus pensamentos
quando estou fora do ar,
apenas abaixo a cabeça e concordo.
A minha moléstia é delirar.

Isso tudo está sujo,
realmente imundo.
É a morada interior
e eu preciso limpar antes que escureça.

A morte adora se esfregar em mim,
como um corpo adora se esfregar na toalha,
após o banho.

Eu corro da morte,
e a morte corre atrás de mim.
Eu corro,
caio e me ralo toda.
Brincadeira de adulto.

Uma força irrompe dentro de mim,
toda vez que meus 21 gramas enfraquecem,
e não há nenhum segundo
que eu não lute pela vida.

Meu corpo mole
e esta essência desengonçada
e febril,
é o calendário dos meus dias,
mas eu conheço cada pedaço
da minha insensatez
e sei bem como sobreviver.

Nós podemos vencê-los, para todo o sempre.

Não é sobre mim, é sobre nós

Esta febre de existir.
Amargura desmesurada,
fraqueza crônica,
olhar transtornado.

O barulho do mar diz muito
sobre o que eu sinto por você.
É um querer desmedido
que nem a calmaria das plantas entenderiam.

Sinto vontade de engolir meu próprio vômito,
como revolta das coisas que não se podem entender.

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Manipulação

É revoltante quando brincam
com as informações que damos!.

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Máquina de escrever
Caderno
Caneta
Acessórios de uma existência aflita.

Colocar luz na dor até ela definhar.

A dor no céu,
o céu na dor.

Não é sobre mim,
é sobre nós.

Fabulário geral do delírio cotidiano

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público de ponto expediente
[protocolo e manifestações de apreço sr. diretor.

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.”

Sofre, pois se não sofreste
na vida, que já vivias;
sofre, pois não conheceste
como t’outra vez perdias.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo.

Pensar é não compreender …
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos e estarmos de acordo.

Se as minhas mãos falassem, elas diriam: “sim”

Abrir os olhos. Levantar. Andar. Girar a maçaneta. Andar. Abrir a torneira. Lavar o rosto. Fechar a torneira. Tirar a roupa. Ligar o chuveiro. Desligar o chuveiro. Vestir-se. Calçar o sapato. Abrir a boca. Escovar os dentes. Fechar a boca. Andar. Abrir a geladeira. Pegar o leite. Pegar a manteiga. Fechar a geladeira. Pegar o pão. Subverter. Pegar o copo. Colocar o leite. Beber. Mastigar. Olhar para o nada. Levantar. Abrir a janela. Sentar. Fitar o céu. Engolir. Beber. Mastigar. Subverter. Andar. Pensar. Sorrir. Abrir a boca. Escovar os dentes. Fechar a boca. Andar. Colocar a chave no trinco. Girar três vezes. Abrir a porta. Fechar a porta. Colocar a chave no trinco. Girar três vezes. Fechar a porta. Andar. Pensar. Chorar. Secar as lágrimas. Entrar no ônibus. Ficar em pé. Descer do ônibus. Assasinar borboletas. Suspirar. Escrever poemas em um saco de pão. Dar mortal nas nuvens. Beber licor de amendoim. Assistir um filme do Godard. Gritar. Subverter. Rasgar vestidos. Andar de lambreta com uma galinha. Salvar uma abelha. Enfiar um brinquedo no ouvido. Olhar um quadro do Miró. Ler a biografia do Luis Buñuel. Mascar chiclete. Ouvir Miles Davis. Sonhar com o casamento de Jack Kerouac e Neal Cassady. Dormir em cima de uma árvore. Aprender línguas mortas. Usar psilocibina. Brincar de pique esconde numa usina nuclear. Chegar em casa. Assistir o noticiário. Ligar para o Hunter S Thompson. Fazer gravações da própria voz dizendo coisas num fluxo de consciência. Deixar em frangalhos o quarto de um hotel. Se comunicar por telepatia. Enlouquecer de amor. Escrever cartas para o meu eu do futuro. Deitar. Rezar. Dormir. Subverter

Receituário de controle especial

 

I

O Corpo:
imóvel,
em repouso profundo.

A urina escorre no vestido,
o tecido fede.

O sofrimento torna a todos semelhantes.

Jamais me esquecerei daquele vestido
fedendo a mijo.

Concluo ter
um profundo preconceito com vestidos:
se não os queimo,
os urino.

Pois me deixe,
irei retirar a casca do machucado
antes dele sarar.

Se a dor aumentar,
eu lambo as feridas.

Delírio persecutório.

A vida tem dessas.

Eu queria relembrar os velhos tempos,
onde tudo era calmo
e não fazia nenhum barulho.

Minha mente parece
uma estação de rádio desgovernada,
várias vozes se comumicam comigo,
mas não consigo dar sentido
ao que elas me dizem.

II

A pior fase da vida
é quando estamos perdidos
e sem saber o que fazer.

Queixa principal:
trazida pelos bombeiros.

“Discurso delirante”

“Um homem a incentiva
a abandonar os medicamentos”

É angustiante ler um boletim de atendimento.

A poesia me salvou?.

Ou ainda me salvará?.

O desatino chegou até mim.

Isso não é um poema sobre frutas

 

Nunca entendi minha aversão por manga.
Ela me remete a sabores esquisitos.

Sempre quando vejo mamões no mercado,
me lembro de você.

Suas obsessões me fascinam,
ao passo que me assustam.

Isso não é um poema sobre frutas,
embora pudesse ser.

É sobre o que você repercurte em mim.

Eu queria saber
o que se passa na sua cabeça
no exato instante
em que você come banana.

“Todo frutariano é feliz”

Há um lado lúdico nessa felicidade,
pois então cultive
essa tua criança.

Uma vida sem paixões é inexistir,
é estar submerso,
experienciando uma semi-vida.

Admiro tuas paixões
e o timbre da tua voz enquanto fala delas.

A gente está nessa vida pra se conhecer
e se desconhecer
em cada gesto não esperado.

Nunca entendi minha aversão
por abacate.
Hoje em dia acho delicioso.

Sempre quando bebo suco de melancia com limão,
me lembro de você.

Isso é um poema sobre o intangível.

Manga banana abacate
Melancia
Você

Hoje é verão dentro do meu coração

Qual a função educativa da dor?
 
Amarrar sapatos é tão existencialista.
 
Nunca esquecerei daquelas noites mal dormidas.
Privação do sono gera mais privação do sono.
 
No dia 30 de junho houve um eclipse dentro de mim.
 
As palavras, quando reunidas,
ilustram a decadência.
 
Qual a função educativa da raiva?
 
Fenergan na veia.
Eu não queria mais ter a capacidade de sentir.
 
É muita lágrima engolida,
em tempos onde a tristeza mata.
 
Quando olho as horas me lembro de você
e daquela tarde em que se atrasou,
porque o trem estava parado.
 
É fácil escrever,
difícil é dar ordem aos sentimentos.
 
Você é tão cartesiano,
mas se eu desse um tiro
no lado esquerdo do seu peito sairiam flores.
 
Qual a função educativa da felicidade?
 
Melancolia é olhar bananas podres.
 
Talvez,
não tenha sido falta de b12
e isso te machuca como um corte de faca.
 
Eu queria abraçar os teus conflitos
e te dizer que por mais
que você seja um perdido
tudo vai ficar bem.
 
Hoje é verão dentro do meu coração.

 

Sobre cheiros e despedidas

 

Há um cheiro de doença e despedida,
no fio dos meus cabelos.
Eles caem no ralo em fios grandes,
unidos uns aos outros

Há um cheiro de perfume velho no meu peito
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore significa minha solidão.
Os frutos caindo no chão é a dificuldade em chegar até mim.

A doença não me define.
As clínicas psiquiátricas servem para transformar pessoas em ratos de laboratório.
Meus cabelos não param de cair.

As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.

Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.
4:28 de nostalgia.

Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.

Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.
Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de enfermidade nos meus vestidos.

Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.