Essa emoção sem nome tornará os dias pálidos

Numa quietude exagerada presto atenção no mantra da parede.
 
O fim é um princípio.
 
O burburinho do azulejo com o abajur.
 
A verdade tem cheiro de alcoól etílico.
O temor em entorpecer.
 
Resmungar em cima de uma bacia de folhas verdes secas.
 
Há uma Golden Gate dentro de mim.
Alguém se suicida a cada segundo.
 
As vísceras produzem suor quando penso em viver.
 
Stelazine bateu na minha porta e gritou: ”morra”.
 
Os fármacos psiquiátricos e seus usuários são um relacionamento abusivo.
 
As bombas de chocolate no mostruário das confeitarias são mais reais do que eu.
As bombas de chocolate estão vivas e eu manifesto falta de entendimento das coisas.
 
O açúcar se sente pertencente ao mundo,
e eu,
em um desconhecimento obscuro não sei o que é o mundo.
 
Porque o mundo é tudo o que sou e o que não sou.
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Retrato de uma garota medrosa

Num silêncio escuro engolíamos os remédios sentados na cama de ferro
conscientes de que ninguém poderia atenuar as nossas feridas.
 
Como é o rosto da morte?.
 
Não sentir-se bem na própria pele
é não reconhecer mais a si mesmo.
 
Noto que sou mais vazia que um frasco de perfume vazio.
 
Tenho que esquecer os desejos e ter as mãos vazias.
 
Transcender a dor.
 
Desligar as luzes cambaleantes das esquinas da mente
e dissecar o pânico,
entendendo assim os seus mais sutis movimentos.
 
Enquanto não entendo a química do desconhecido:
beber cerveja nos dias frios,
apagar as luzes e olhar para as paredes até dormir,
se perder nas escolas místicas da alma.

Agorafobia

De modo súbito, como em uma música do Sonic Youth,
um desespero vem á tona,
uma vergonha,
um pânico abusivo.
 
Não há para onde fugir se estou dentro de mim.
 
Por que não enfiar as mãos dentro da cabeça e rasgar os julgamentos?
 
O medo precisa pifar: acender o fósforo e jogar gasolina nele.
 
Ei, isso vai passar.
 
Dentro da van, voltando pra casa.
 
Sinto-me insegura.
 
Será que eles percebem?
 
Ei Deus, por que isso está acontecendo?
 
Eu não fui uma boa garota.
 
Então, eles percebem e tudo está perdido.
Meus olhos denunciam.
 
Enlouquecendo nas florestas da mente.
 
Eu posso sentir quando está prestes a acontecer.
E não pára por um segundo.
 
Ei, eu não fui uma boa garota.
Ei, os remédios não me ajudam.
 
Será que eles vêem através dos meus olhos?
 
Ei Deus, por que isso está acontecendo?

E o sonho americano nos internou em hospitais psiquiátricos .

gonzo

Começa com um desalinho,
igual a crise de 1929,
igual máquinas de lavar pifando,
igual pilhas de pratos caindo do armário da cozinha e quebrando,
igual lábios rachados sangrando cuidadosamente.

Começa com a romantização da depressão:
a falta de banho,
as lixeiras do banheiro lotadas de papel higiênico usado,
as pilhas de roupas sujas mofando dentro do cesto,
a louça lotada durante dias a fio
os lixos acumulados no chão fedendo a chorume.

Começa com a promessa de que Fellini, Copola, Tarantino e companhia tornarão os dias mais brilhantes.

Começa com aulas de croqui de moda,
causas libertárias,
a primeira foda fixa com os poemas do Ferreira Gullar,
biografia do Luis Buñuel,
socialismo
e sessões de yoga.

E o sonho americano é uma grande ilusão,
e você se vê beirando aos 30,
dando entrada no benefício do INSS para receber 1 salário mínimo por mês,
pois tem deficiência mental.

Termina com livros de autoconhecimento,
Krishnamurti Osho Eckhart Tolle Paul Brunton
grupos de apoio,
abuso de drogas recreativas
e insatisfação por relações falidas.

Termina com o ódio a impermanência,
a busca por prazer sem fim,
porque somos uns filhos da puta hedonistas.

Receituário de controle especial

 

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O corpo:
imóvel,
em repouso profundo.

A urina escorre no vestido,
o tecido fede.

O sofrimento toda a todos semelhantes.

Os ricos,
os pobres,
o dono da mercearia,
a senhora que carrega o fardo,
o banqueiro.

Jamais me esquecerei daquele vestido fedendo a mijo.

Delírio persecutório.

A vida tem dessas.

Eu queria reviver os velhos tempos,
onde o barulho não era tão alto.

Minha mente parece uma estação de rádio desgovernada,
várias vozes se comunicam comigo,
mas não consido dar sentido ao que elas dizem.

A pior fase da vida é quando estamos perdidos e sem saber o que fazer.

Discurso delirante.

Um homem a incentiva a abandonar os medicamentos.

É angustiante ler um boletim de atendimento.

Pois me deixe,
irei retirar a casca do machucado,
antes dele sarar.

Se a dor aumentar eu lambo as feridas.

A dor vivifica.

Viajante ao redor do quarto escuro

Com lembranças irrecordáveis
escuto as vozes da idade,
sempre dizendo que sou nova o bastante para saber a diferença entre tristeza e melancolia.

Vagueio em ruas distantes,
enluaradas,
iluminadas por luzes fraquejantes,
onde os tijolos das casas brilham e a cidade escurece.

Talvez,
jamais eu aprenda com os acontecimentos que se repetem na minha vida.
Aprender requer qualquer coisa que eu não tenho,
e eu me olho no espelho do banheiro num silêncio religioso.

Reparo nas três espinhas vermelhas na barriga,
no meu cabelo na altura do ombro,
nas gorduras localizadas,
e me torno novamente cansada,
num vazio realizável.

Nunca viajei ao redor do mundo,
me entorpeço com bebidas alcoólicas vagabundas,
dificilmente choro,
fiquei triste depois que as frutas pararam de cair da árvore.

Transborda em mim inacessibilidade.
Sou difícil de trafegar.
Arredia como um gato de rua,
afastado voluntariamente de seus companheiros.

Durmo pensando nos porquês,
e eles me tornam frágil o suficiente pra se frustrar com as relações fugazes que me descartam como um papel toalha sujo.

Eu poderia orar para agradecer.
Orar em silêncio,
sem usar palavras.
Orar enquanto olho a vida se desdobrando ao meu redor,
mas falta sutileza dentro de mim,
falta essa inocência do primeiro olhar.

Minha cabeça é um vaso de flores mortas

Mais uma vez choraremos enquanto folheamos revistas de decoração.
Mais uma vez comeremos e fumaremos buscando um novo seio materno.
Mais uma vez estaremos descalços e famintos,
embaixo das pontes de nossa mente.
Mais uma vez a loucura é tudo o que teremos.
Mais uma vez as nossas crises servirão para nos curar.
Mais uma vez iremos querer viver nos bosques,
assim como o Thoreau em ” Walden “.
Mais uma vez assistiremos Arte 1 e ficaremos profundamente emocionados.
Mais uma vez guardaremos as estrelas nas cumbucas.
Mais uma vez faremos sexo através das telas dos computadores.
Mais uma vez os nossos peitos vazios esperarão o sol nascer.
Mais uma vez sonharemos com a Sylvia Plath com a cabeça dentro do forno, pronta para morrer.
Mais uma vez comparemos talheres,
vasos de porcelana,
abajures
e flores artificiais.
Mais uma vez nos molharemos e nos queimaremos,
para confirmar se ainda podemos sentir.
Mais uma vez tudo nos acometerá por inteiro,
nos assaltará,
nos subtraírá,
nos rasgará
por dentro e por fora, assim como papel sulfite,.

E se morrermos,
não chore não,
é só poesia.

Eu pude sentir o cheiro dos teus fluídos naquela fotografia

A língua roxa fedendo a vinho.

A manta exalando amaciante.

No dia seguinte, a boca bebe água,
muita água.

A bunda lânguida senta no sofá.

O olho sequer chora.

Observo o meu tênis vermelho surrado e penso num breve instante que eu queria ser ele.

Ou um anel,
uma lanterna,
um perfume,
uma instalação hidraúlica,
e por que não uma privada?!.

Éramos virtuais,
éramos tão afetuosos quanto um livro de aritmética.

Ele: tão frio quanto um jogo de jantar.

Fizemos sexo por fotos.

E eu me lamentava por ele não ter pintas no pescoço,
me queixava, pois assim eu não poderia brincar de ligar os pontos.

Coisa de gente apaixonada.

Você me entende, né?!

No fundo sabemos o quão acolhedor é sofrer numa cama limpa e cheirosa,
mas precisamos antes de mais nada limpar as nossas almas.

É fácil chorar quando a gente sente que as pessoas que amamos vão nos rejeitar ou morrer. Em pouco tempo o índice de sobrevivência de todo mundo cairá a zero.

Numa compreensão súbita de todas as coisas, fico pasma perante a realidade. Como se tivesse vendo tudo com uma clareza nunca antes vista.

Olho através da janela do trem e certo abatimento envolve-me, fazendo ninho nas minhas células cerebrais.

Quão sublime é a depressão.
Assassinei os segundos internada em um quarto lúcido,
vigilante aos meus mais ensandecidos sentimentos.

Quão sublime são as ruínas emocionais.
Elas nos fazem chorar em outros idiomas.

Eu quero um copo preenchido da mais pura água
e alguém para ler as minhas mãos.
Eu quero observar uma chacina de borboletas.
Eu quero assistir um filme francês ao contrário.
Eu quero a morte aos domingos.
Eu quero testemunhar sofrimentos mais graves que o meu para me curar.

Hoje eu quero quebrar pratos,
queimar vestidos,
sofrer até esquecer o meu nome,
porque a poesia não me salvará.

Pessoas não são respostas, são perguntas

Vejo através dos teus olhos, velhos soís enfraquecidos.
Um que diz adeus quando saúda.
Ensaiando a não ingestão de emoções,
como um ser que não sente enquanto deveras sofre por sentir demais.

Luas caídas em areia incandescente são as tuas memórias.

A dor indescritível que não cabe no espaço inexato de um discurso melancólico.

Há um catálogo de fraquezas dentro da tua garganta.
Pois o grande engano está em acreditar que exista imprecisão na miséria.