Carta a um que ainda está na minha memória. (Ou Marla)

 

Seria mais fácil não pensar em você
porque o turbilhão de desejos que isso me trás é incalculável,
e eu preciso ser honesta comigo mesma pra entender que essa compulsão é só dependência emocional.

Eu queria reclamar das coisas junto contigo, naquele pessimismo e niilismo que só nós temos e eu acho adorável.

Você se assemelha a mim, porque na verdade, ambos somos inseguros e incertos, sempre mudando de ideia toda hora.

Uma hora quer a doença outra hora quer a cura.

Eu queria estudar Eckhart Tolle de novo junto contigo e te fazer rir novamente durante o estudo.
Eu não consigo me esquecer do tom da tua voz enquanto falava sobre os seus dramas. Tinha um tom de importância expresso em tudo o que você dizia e trazia uma seriedade tão grande que eu só queria prestar atenção em cada palavra que era dita.

Você é um garoto problemático e assustado com o poder da vida, e eu também sou uma garota problemática e assustada com o poder da vida.

Somos dois desajustados apontando o dedo na cara dos outros e procurando um culpado pelas nossas misérias.

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A poética dos que não conheceram a verdadeira liberdade, são apenas recortes confusos e fragmentados do ego.

Há, sobretudo, comportamentos que rementem a um tempo remoto.
Pensamentos e emoções congelados,
sempre regidos por valores ultrapassados.

É inexprimível a impotência
mediante a engenharia do fascínio.

Desarma
ou arma?.

O ardor do apego distraí a mente,
não toca a alma.

As ficções da psique nos tornam decadentes.

O poeta é um perdedor,
porque ele leva calor ao outro por meio da palavra,
não do espírito.

O lirismo é a grande oportunidade de imortalizar o fracasso.

As engrenagens do romantismo são alucinógenas,
trazem consigo alucinação e euforia.

Com crise de ansiedade nada é real. Tudo fica distante. Tudo é uma cópia, da cópia, da cópia .

Abracei-o com o pensamento acelerado e debulhei-me em lágrimas.
Não é fácil racionalizar a avalanche de pensamentos irracionais que surgem para amedrontar.

Sons da natureza, chá de camomila, melatonina.

Nenhum paliativo acalma.

Com crise de ansiedade o corpo fica debilitado, fraco, desanimado, frágil, débil, inválido. Sem capacidade de agir.

Privação do sono faz o cérebro comer a si mesmo.
Jack ficou 6 meses com insônia antes de conhecer Tyler Durden.

Dramin na veia.

Insônia presente.

Somente sobrou a barbeiragem no meu braço. Uma grande mancha cor uva.

Com crise de ansiedade tudo fica distante.

A fraqueza corporal.
A mente indecentemente trabalhando sem parar.

Centelhas de medo se desprendendo do cérebro em brasa.

Tudo é uma cópia,
da cópia,
da cópia.

A fábula psicótica dos pensamentos narrando sem cessar.
Buscar racionalizar as narrativas que surgem é sinônimo de fracasso.
Acreditar nelas nem que seja por um instante, para depois elas se dissolverem naturalmente, sem esforço.

E sempre se dissolve.

O desarranjo é um animal mamífero – parte II

Na superfície da minha alma, existe uma luz fraquejante,
e eu ainda não consigo ver toda a sorte de grandezas que há em seu interior.

Meu ópio é o mundo externo:
a reunião de cores, formatos e eventos similares.

O desarranjo é um animal mamífero,
sempre gerando os mesmos filhos.

A angústia, o ressentimento, o egoísmo.

Pensar é uma linha de produção.

Fábrica de ilusões.

O gorduroso excesso de existir ainda nos matará

A linguagem é só uma parte expressa,
de todas as outras que evidencia uma existência inquieta,
celebra as cicatrizes em meio a uma chuva de arroz.

A realidade embalada num papel celofane azul.

A natureza é o urinol de Duchamp,
uma obra de arte incompreendida,
usada como um instrumento de escapismo,
mero enfeite para anestesiar o descontentamento,
esse vazio de furar num encontro consigo mesmo.

O desabrochar do brilho solar:
banquete de projeções moldadas pelo olhar.
As borboletas, os pássaros, as gaivotas, os patos, as joaninhas, querem ser oxigênio sensorial.

O sussuro onírico da contemplação.
Fragância de cereja.
Balé de beija flores.

Demolir o teatro de significados.
As cousas belas não cumprem protocolos sociais.

Existir é andar de mãos dadas com uma mão morta

As pequenas rachaduras ainda me jogarão em cima de um carro em movimento.

Identificação com a mente.

O suicídio é como um copo de água bebido num dia quente,
é como um pássaro silvestre cantando.

Uma tartaruga saiu da minha boca.
Ela riu do meu apego extremo aos pensamentos e os seus olhos lápis-lazúli me mostrou a minha ruína emocional.

Estar presa num corpo é tão primitivo.

Por não saber como lidar com a anatomia da insensatez,
prefere o findar.

O desarranjo é um animal mamífero – parte I

A fuga da razão dá formato a algo disforme. Um cão que vai comendo a pele, os poros, os ossos, mastigando a mente humana das beiradas as entranhas, deixando-nos nus e entregues a loucura.

Duelar contra a edificação corpórea em madrugadas angustiantes, no limiar entre a vida e a morte.

Espetáculo de dentes moídos, limados em nome de algo incompreensível.

A chuva de alfinetes que descem de um olho que chora.

Em cada vulnerabilidade existencial existem batimentos cardíacos e respirações estrangeiras.

Há um movimento de insanidade nas plantas, algas e fungos, enquanto a humanidade persiste em desprezar a descompostura.

O ego é um calçadão. Ele sempre quer atravessar as pessoas.

A saliva das noites mal-dormidas
deixa a alma com ranço,
sabor gorduroso.

A enxaqueca corporal que levará
a cura das vísceras expostas.

Chora casa,
chora comigo
não deixa o meu peito entalado,
traga-me o orgasmo do carinho maternal.

Demole os tijolos do passado,
esse copo de vinho estragado que deixa os neurônios azedos.

Voa mosquito,
pousa no meu corpo.

A vida é entrega e partilha.

Os meus movimentos são pesados quando tomo banho.

O automatismo.
A violência simbólica.

O ego é um calçadão.
Ele sempre quer atravessar as pessoas.

Ensaio sobre o desassossego

Ô, nó, só o coração suporta o vendaval que deixa os seus vasos sanguíneos embaraçados.

Borboletas no estômago: digital da euforia.

Numa noite abafada, cheirando a fumaça de carro, mato quente e insegurança, segurei o feto da fantasia entre os meus dedos trêmulos e confusos.

Observei-o.

A agressão da imaginação embriaga.

Deixei sangrar.
Por ora, sangra.
Até os olhos, enfim, abrirem.

A nostalgia é passiva.
Esbofeteia a razão.

As mãos se lambuzam de sangue melado e vivo – cozido – e pintam quadros do absurdo.

Festim

Por vezes, subitamente,               qualquer coisa cai e espatifa,
e a estátua do desconsolo,
escultura de gritos,
fica ao redor do corpo vivo.

A lixa rasgando a testa,
a dor de cabeça suicida
amamenta esse filho que é o conflito.

A agonia, num processo de auto antropofagia,
come a carne e chupa os ossos.

Não reconheço esta pele.
Não reconheço estes dedos.
Estranho estes pés.

A maçaneta da porta se torna um abutre.
O rosto, uma torneira de personificações.
O cérebro que visto, uma coroa de arame.

Respirar: um eletrochoque.

Estou prestes a parir um campo de concentração.

A noitinha emana um amarelo quente.

A minha consciência, berra.