Festim

Por vezes, subitamente,               qualquer coisa cai e espatifa,
e a estátua do desconsolo,
escultura de gritos,
fica ao redor do corpo vivo.

A lixa rasgando a testa,
a dor de cabeça suicida
amamenta esse filho que é o conflito.

A agonia, num processo de auto antropofagia,
come a carne e chupa os ossos.

Não reconheço esta pele.
Não reconheço estes dedos.
Estranho estes pés.

A maçaneta da porta se torna um abutre.
O rosto, uma torneira de personificações.
O cérebro que visto, uma coroa de arame.

Respirar: um eletrochoque.

Estou prestes a parir um campo de concentração.

A noitinha emana um amarelo quente.
O porteiro da minha consciência, berra.

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O escritor é o arquiteto da destruição

Nunca estive tão concentrada na realidade, tão concentrada igual ao senhor que estava no ônibus, sentado no banco a frente.

Ele observava tudo ao redor. Ele estava desperto e sóbrio. Eu não estava a par das coisas. Realmente havia algo muito sujo no mundo que eu não entendia, mas aquele senhor parecia entender.

Meus olhos haviam perdido a sua funcionalidade, dado que os pensamentos fluiam vivamente. ” Não quero passar a vida toda tomando remédio”, pensei.

Mordi os dedos enquanto pensava no quanto isto era injusto: ser premiada com uma doença.

“Não se pode viver da própria alma!”, Henry Chinaski disse isso. Pensei como seria viver da arte. Viver da escrita. Seria uma espera profunda, uma espera por grandes explosões que surgiriam nos momentos mais inoportunos. No final das contas, precisa-se de uma grande dose de coragem.

Um hospício é mais visceral que os poemas do Ezra Pound, mais vivo que um recital de poesia, mais forte que uma revista mimeografada.

Quando um escritor escreve sem inibições, ele entra em colapso e vivencia um surto psicótico forte e assombroso. O surto não o deixará concentrado na realidade e será mais vândalo que um copo de uísque.

No surto, surge uma série de conclusões destrutivas e vibrações estranhas. A parede que divide a realidade da fantasia é destruída, sendo possível encarar as duas de frente, para logo em seguida descobrir que a realidade vende o seu corpo para a fantasia.

O pavor e o desespero dão lugar a frenesi. A voz não vacila em nenhum instante, há uma arma atrás dos dentes, e os dedos ficam completamente estimulados, como se tivessem ingerido mescalina.

O escritor é o arquiteto da destruição e precisa conhecer a sua loucura (e a dos outros) de perto para poder transcender esta merda toda. Por isso, eles deveriam largar os bares para passarem uma temporada nos hospícios.

O filme

Ás vezes, como uma expectadora,
observo cada um representando o seu papel,
observo cada um preso na ratoeira da sua atuação.

Mas, estamos embaixo do mesmo sol,
estamos embaixo da mesma lua
e caminhamos no mesmo asfalto.

A madrugada choraminga enquanto os mendigos assistem tevê.
A madrugada é uma nação apodrecida e solitária.

As ideologias são trituradas por cães raivosos
e no chão sobram apenas restos tristes e envelhecidos.

É preciso coragem para quebrar a redoma de vidro que aprisiona o coração.

De tempo em tempo,
subimos a escada que nos leva a euforia
e experimentamos emoções anormais.
Essa paixão só pode ser provada
se quisermos perder membros do corpo.

O indizível bate ponto nas bocas
que tentam doutrinar e não conseguem.
É preciso conversar com as janelas
para se entender certos fenômenos,
nos falta capacidade linguística.

Ás vezes, essa coisa sem nome
que nos acomete por inteiro ainda nos matará.
A contínua sensação de afogamento.
O adoecimento é inevitável.

O desenlace é o curativo do dissabor

A luz folclórica da noite acende o meu rosto.
Aquela garota de ontem, abocanha as recordações com sabor de cereja.

Os punhos erguidos diante do céu.
Eu luto covardemente.
Os astros sangram.

Minha matéria, com um trejeito maníaco,
transita entre a epifania e a inexistência.
Aos poucos, o ser, fora das possibilidades, morre mais.

Um manicômio dentro do ouvido.
A ponte que existe entre mim e a bipolaridade.
Eu apago, ela me incendeia.
O cérebro está cheio de cicatrizes.

Despenteio os cabelos e devoro
grandes porções de fragilidades em compota.

No horizonte, o morcego voa.
O tempo que há de vir.
A derrota de uma garota.

Cada vez que os calendários se renovam,
eu desboto.
Sinto que irei desaparecer.

Quero enterrar os meus punhos empapados de sangue
dentro do meu ventre e sentir o cosmos agir.

Nestes tempos, banhada de suor e pavor,
como pétalas de rosa
na certeza de que o gol será contra.
Inaugurarei pequenos incêndios dentro de mim.

O inferno está dentro de um livro

A psicoterapia com as paredes é um passatempo solitário, no qual eu jamais dispensaria. É um exercício que ensina a suportar qualquer sofrimento gritando na cabeça. A dialética da dor.

Ás vezes, me assombro com a vaidade e a megalomania dos escritores, sempre disputando silenciosamente (ou abertamente) com os outros.

Escrever, é como se fosse uma canção emprestada pela natureza, é uma dádiva que não nos pertence, mas cantamos e dançamos, na vã inocência de que somos detentores deste ofício.

Experienciar faz parte do processo, vivenciar situações insalubres torna o método mais produtivo e doloroso. Escrever é uma carta de alforria transcrita por nossos algozes.

Experimentar decepções amorosas extremamente fortes e fulminantes, ser internado num hospital psiquiátrico, sofrer abuso psicológico, não entender as malícias do mundo, provocar sofrimento no seu objeto afetivo e sentir prazer nisso, ser psicologicamente desajustado, não ter habilidades sociais, ser viciado em drogas, enlouquecer dentro da sua cadeia mental, falta de comunhão com a vida, viver o momento inteiramente e sem repressões, assim como o fazem os animais não-humanos. Qualquer acontecimento pode levar um escritor a escrever, se isso for permitido de corpo e alma.

Há um trabalhador irritado e furioso por trás de uma obra literária, uma esposa passiva e fiel por trás de um poema, um falecimento do “eu” por trás de um livro de poesia, uma dona de casa violentada por trás de um soneto, uma auto estima abatida e assassinada por trás de um caderno rabiscado.

Escritores, geralmente, foram vítimas de parceiros sádicos, abusados sexualmente, portadores de transtornos mentais ou de relações familiares abusivas.

Talvez, por não conseguirem dominar os eventos e os indivíduos nos quais se relacionam, manipulam as palavras e constroem narrações poéticas semi-verdadeiras. Meias verdades.

A obscuridade e a  desordem é a libido da literatura, e nossos agressores são imortalizados numa obra de ficção ou nos versos de um poema.

Jack Kerouac e Neal Cassady foram dois menininhos medrosos. Ken Kesey criou um movimento psicolédico-literário e acreditava que coisas fantásticas aconteciam no refresco elétrico, que coisas celestiais estavam se manifestando. Harte Crane suicidou-se no mar. Hart Crane uniu-se ao mar. Um tiro foi disparado na casa de Hunter S Thompson. “Relaxe, não doerá”. Baudelaire foi o comedor de haxixe.

Existe um mistério na angústia, que em nenhum momento será entendido. Não existe antídoto.

A literatura é uma enfermeira que dorme conosco, porque sentimos medo demais de dormimos sozinhos, e não há nada pior que dormir sozinho. A literatura é uma sindrome do pânico e o perigo é iminente. A literatura é uma oração torta e honesta quando presenciamos a desgraça profunda.

Verifica-se uma fresta em cada construção poética. Ali, reside o professor autoritário e arrogante, o universitário soberbo, o jogo de poder e submissão nos relacionamentos amorosos, o salvador, a vítima e o perseguidor. O inferno não se localiza no centro da terra, o inferno se localiza dentro de um livro, e não há nada pior do que continuar se mantendo vivo.

Carinhoso pra poder ferir

As cócegas,
direcionadas em pontos específicos,
me adoeceram.

Soubeste bem como aplicá-las.
Entre espamos e risos convulsivos,
teceu-se o absurdo.

O tempo foi o grande aliado da angústia.
A mansidão de teus dedos coçando minha pele foi injusta.

Houve singularidade nos objetivos.
Os aposentos da casa testemunharam o momento,
e transferiram passes energéticos para mim.

Qualquer descompasso sobrou.
Pedregulhos, restos de lixo, fetos abortados.
Resíduos da tua psicologia.

A política dos teus desejos é austuciosa.

A enxaqueca nos olhos e a insônia revelam a desordem.
A caligrafia da tua saliva ficou marcada na minha carne.
Há uma carta atrás do teu tato.
Não pude lê-la, tua consistência é densa.

Essa orgia que é o carinho,
amputa a racionalidade.
Deixei as portas abertas,
e você entrou.

Se eu tivesse morrido, minhas máquinas de escrever teriam chorado

Naquela tarde, o motorista do Uber me disse que nos seus vinte e sete anos de idade
não passou pelo o que eu estava passando naquele momento.

Não podia ser verdade!.

Pessoas agonizam todos os dias em pontos diferentes do mundo. Eu era uma delas.
Pessoas entre a vida e a morte,
deitadas na cama reclinável do hospital,
cospem na cara das outras,
como num insulto de despedida.
Pessoas ficam paralisadas no sofá e não saem dele
por medo do que irá acontecer ao levantarem.

David Bowie tocava ao fundo.
Minha alma iria sair do corpo:
“Troca de estação!”, eu disse.

David Bowie é maravilhoso,
mas toca no âmago e eu estava pirando demais.

Desculpa pela rejeição, meu camarada,
mas hoje consigo te escutar.
Não desculpo o motorista,
eu não queria ter conhecido o hálito de suas intenções.

Aquela senhora me olhando com o olhar penetrante
e batendo com a concha metálica na mão me deixou apavorada.
Ouvi metáforas faiscando em meu ouvido.
Jamais consigo esquecer.

Ritual de morte na garagem.

Não foi o prenúncio de que alguma calamidade fosse vir.

Eu estava crescendo vertiginosamente
e minha cabeça aumentava igual a uma bexiga de aniversário.
Eu inspirava, ela crescia.
Eu expirava, ela diminuia.

Pensamentos são carros que correm a mil por hora.
Você tenta entrar dentro deles em movimento e não consegue.

Sandy Lehmann-Haupt não sabia viajar nos campos inexplorados da mente.
Sandy não queria conhecer a fauna e flora que nunca fora vista.
Sandy tinha medo.
Sandy não queria conhecer outra geografia.
Sandy, temos medo.
Volte pra casa e abrace os seus pais.
Essa viagem é só de ida amigo, corra enquanto você tiver pés.

Também quero voltar pra casa,
e receber uma colher de rivotril na boca, dada pela minha amada mãe.
Ei mãe, meus olhos estão fechando.
Ei mãe, estou ficando calma.
Não ficarei triste.
Não nesta noite.
Me abrace, mãe.

Foram anos difíceis e eu só queria me manter sã antes deles terminarem .

Eu tremia. Meus braços e pernas estavam fora de si. Eles tremiam sem parar. Era como se uma corrente de energia impulsionasse coisas esquisitas dentro e fora de mim. Eu era uma carta fora do baralho e o universo não iria se compadecer com o meu desequilíbrio.

Eu sempre li sobre pessoas que perdiam o controle sobre suas mentes e piravam completamente, num estalar de dedos.
Num belo dia, elas vão na padaria comprar pão e simplesmente sentem que alguma coisa muito ruim vai acontecer. E acontecia. Elas se sentiam engolidas por um dragão.

Eu via vultos pretos e ouvia a casa estalando. Eu sentia um bolo na garganta. Nem ao menos sabia em que ano estava.

Me pergunto como os Merry Pranksters conseguiam levar a cabo o estilo de vida que eles sustentavam todos os dias. Vivendo coisas tão malucas dentro daquele ônibus.

Sempre tive fixação por bocas de fogão, trincos de porta e olhadelas sem razão ao redor, mas jamais acreditei que as coisas iriam tomar rumos alarmantes.

Um poeta me disse que eu sempre fui doida e que isso está na cara, como se ele, que se debateu no chão após usar lsd e que sofreu despersonalização fosse uma referência de civilidade.
Somos loucos, caro poeta, e nossos olhos estão cheios de abismos. Você me despreza porque eu sou um espelho do que você é, caro amigo poeta.

Teve uma noite em que fechei os olhos e tentei relaxar, mas vinham as vozes falando e eu achava que talvez não fosse a psicose, talvez fosse um fenômeno espiritual, mas não, era delírio.
Meu psiquiatra estava certo ao dizer que desde tempos remotos as pessoas tentam explicar coisas inexplicáveis por meio da religião, e por isso que fazia sentido eu ter pensado que era espiritual, sendo que não era.

Admiro quem usa drogas que induzem ao estado xamânico, tem que se ter uma forte dose de coragem para experienciar o que virá, e depois que eu li ”As portas da percepção” fiquei apaixonada pela ousadia do Aldous Huxley.
Queria ter tido um amigo igual a ele no colegial, certamente minha adolescência não teria sido medíocre.

Quando eu estava na faculdade eu via uma série de pessoas tentando ser maneiras e descoladas,               engolindo teorias e consumindo arte conceitual.
Já eu, só queria ler, ir pro bar beber cerveja e me sentir completamente apaixonada por esse cão que são os vintes e poucos anos.

Bukowski foi um pai pra mim. Me tornei sua filha em 2014, após ler ”Misto quente”. Naquele livro podia se ver um homem que sabia lutar com a vida, assim como se luta com um touro.

Hoje, eu me esforço para me manter na linha,
para não fazer vexames novamente,
para não ser vítima do terror psicológico,
para não deteriorar as relações com as pessoas que convivo.
Não faço isso para ser normal, mas para não deixar que esta chama que habita dentro de mim me consuma por completo.

Stelazine bateu na porta e gritou:“ Viva” (nome do meu futuro livro)

 

A existência é uma das invenções mais absurdas que existem.
Ás vezes, me pego pensando o quão assustador são os hábitos genéricos da nossa humanidade e o quanto eles nos tornam pequenos e limitados.

Todas as orações antes de dormir só servem para demonstrar o nosso desespero e solidão.
Somos famintos por explicações e a vida acaba se tornando um suplício.

Quando um poema é parido e toma vida, o trato igual a um filho e o observo toda hora, como se fosse uma criança dormindo.

Não sei quem veio antes ou depois, a catástrofre ou a poesia. Acredito que os dois se fundem numa coisa só, sendo inseparáveis. Como o John Frusciante disse, e eu sublinho, a dor pode criar coisas incríveis artisticamente, que quem tem uma vida normal simplesmente não consegue fazer.

Eu queria entender a gramática da natureza. Se eu descobrisse, os dilemas seriam muito mais fáceis pra mim. Entender o que o barulho do vento quer nos dizer, acalmaria as inquietudes da mente e faria tudo fazer mais sentido.

Tenho escrito quase todos os dias e isso demanda muita carga emocional e psicológica. É como estar num palco atuando vinte quatro horas por dia. Até por que o ato de escrever não se encerra no fim de um poema feito. A sensação perdura o dia inteiro, e você fica horas delirando e sentindo a troca de energia feita com o que foi escrito.

Eu quero viver o que a literatura puder me oferecer e sem me exigir demais, sem a necessidade de ser grandiosa. A grandiosidade consiste em ser simples, consiste em gargalhar até o siso doer, consiste em passar por situações típicas e enxergá-la por ângulos diferentes.

Se um dia eu perder meus polegares e não puder mais escrever, eu farei que nem o John Fante fez (que havia perdido a visão) e ditarei meus poemas para alguém. Porque a arte é isso, é se doar até as últimas instâncias, e eu quero é isso: viver, morrer e renascer por ela.

Apesar dos dias serem assim, eu viveria tudo novamente

Todo o dia eu abro a porta, sento no quintal e espero o vento chegar.
Você poderia vir com ele, como num pesadelo lúcido,
e mastigar estilhaços junto comigo.

Teus carinhos antecedem a tragédia e eu entendo bem isso.
É teu sentido de existir.
Costurar conflitos enquanto deixa a fumaça fluir.

Abraços nunca serviram para ferir.
Não escondo facas nos braços.
Abraços são edredons que servem para aquecer em dias de frios.
Eu quis aquecer teu coração, jamais te machucar.

Você roubou um pouco de mim e dividiu a tua presença embaçada.
Teu modo de ser é como a textura da areia sendo apertada entre as mãos.

As frustrações são traidoras,
elas nos ensinam que não tornaremos a repetir os mesmos erros,
mas repetimos por estarmos viciados em sentir qualquer loucura
que revolva tudo ao redor e nos deixe completamente desabrigados.

Uma casa é feita de concreto ou de carne e osso?.
A casa na qual me abriguei não tinha chão e nem teto,
era disforme e barulhenta, mas cheia de vida e sonhos.
O som dela era de uma voz que falava sobre suas convicções de forma cativante.

Falta fôlego, falta ar, falta clareza nos sentimentos.
Mas, ainda assim, você poderia vir junto com ele,
como num sonho lúcido.