O desarranjo é um animal mamífero – parte II

Na superfície da minha alma, existe uma luz fraquejante,
e eu ainda não consigo ver toda a sorte de grandezas que há em seu interior.

Meu ópio é o mundo externo:
a reunião de cores, formatos e eventos similares.

O desarranjo é um animal mamífero,
sempre gerando os mesmos filhos.

A angústia, o ressentimento, o egoísmo.

Pensar é uma linha de produção.

Fábrica de ilusões.

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O gorduroso excesso de existir ainda nos matará

A linguagem é só uma parte expressa,
de todas as outras que evidencia uma existência inquieta,
celebra as cicatrizes em meio a uma chuva de arroz.

A realidade embalada num papel celofane azul.

A natureza é o urinol de Duchamp,
uma obra de arte incompreendida,
usada como um instrumento de escapismo,
mero enfeite para anestesiar o descontentamento,
esse vazio de furar num encontro consigo mesmo.

O desabrochar do brilho solar:
banquete de projeções moldadas pelo olhar.
As borboletas, os pássaros, as gaivotas, os patos, as joaninhas, querem ser oxigênio sensorial.

O sussuro onírico da contemplação.
Fragância de cereja.
Balé de beija flores.

Demolir o teatro de significados.
As cousas belas não cumprem protocolos sociais.

Existir é andar de mãos dadas com uma mão morta

As pequenas rachaduras ainda me jogarão em cima de um carro em movimento.

Identificação com a mente.

O suicídio é como um copo de água bebido num dia quente,
é como um pássaro silvestre cantando.

Uma tartaruga saiu da minha boca.
Ela riu do meu apego extremo aos pensamentos e os seus olhos lápis-lazúli me mostrou a minha ruína emocional.

Estar presa num corpo é tão primitivo.

Por não saber como lidar com a anatomia da insensatez,
prefere o findar.

O desarranjo é um animal mamífero – parte I

A fuga da razão dá formato a algo disforme. Um cão que vai comendo a pele, os poros, os ossos, mastigando a mente humana das beiradas as entranhas, deixando-nos nus e entregues a loucura.

Duelar contra a edificação corpórea em madrugadas angustiantes, no limiar entre a vida e a morte.

Espetáculo de dentes moídos, limados em nome de algo incompreensível.

A chuva de alfinetes que descem de um olho que chora.

Em cada vulnerabilidade existencial existem batimentos cardíacos e respirações estrangeiras.

Há um movimento de insanidade nas plantas, algas e fungos, enquanto a humanidade persiste em desprezar a descompostura.

O ego é um calçadão. Ele sempre quer atravessar as pessoas.

A saliva das noites mal-dormidas
deixa a alma com ranço,
sabor gorduroso.

A enxaqueca corporal que levará
a cura das vísceras expostas.

Chora casa,
chora comigo
não deixa o meu peito entalado,
traga-me o orgasmo do carinho maternal.

Demole os tijolos do passado,
esse copo de vinho estragado que deixa os neurônios azedos.

Voa mosquito,
pousa no meu corpo.

A vida é entrega e partilha.

Os meus movimentos são pesados quando tomo banho.

O automatismo.
A violência simbólica.

O ego é um calçadão.
Ele sempre quer atravessar as pessoas.

Ensaio sobre o desassossego

Ô, nó, só o coração suporta o vendaval que deixa os seus vasos sanguíneos embaraçados.

Borboletas no estômago: digital da euforia.

Numa noite abafada, cheirando a fumaça de carro, mato quente e insegurança, segurei o feto da fantasia entre os meus dedos trêmulos e confusos.

Observei-o.

A agressão da imaginação embriaga.

Deixei sangrar.
Por ora, sangra.
Até os olhos, enfim, abrirem.

A nostalgia é passiva.
Esbofeteia a razão.

As mãos se lambuzam de sangue melado e vivo – cozido – e pintam quadros do absurdo.

Festim

Por vezes, subitamente,               qualquer coisa cai e espatifa,
e a estátua do desconsolo,
escultura de gritos,
fica ao redor do corpo vivo.

A lixa rasgando a testa,
a dor de cabeça suicida
amamenta esse filho que é o conflito.

A agonia, num processo de auto antropofagia,
come a carne e chupa os ossos.

Não reconheço esta pele.
Não reconheço estes dedos.
Estranho estes pés.

A maçaneta da porta se torna um abutre.
O rosto, uma torneira de personificações.
O cérebro que visto, uma coroa de arame.

Respirar: um eletrochoque.

Estou prestes a parir um campo de concentração.

A noitinha emana um amarelo quente.
O porteiro da minha consciência, berra.

O filme

Ás vezes, como uma expectadora,
observo cada um representando o seu papel,
observo cada um preso na ratoeira da sua atuação.

Mas, estamos embaixo do mesmo sol,
estamos embaixo da mesma lua
e caminhamos no mesmo asfalto.

A madrugada choraminga enquanto os mendigos assistem tevê.
A madrugada é uma nação apodrecida e solitária.

As ideologias são trituradas por cães raivosos
e no chão sobram apenas restos tristes e envelhecidos.

É preciso coragem para quebrar a redoma de vidro que aprisiona o coração.

De tempo em tempo,
subimos a escada que nos leva a euforia
e experimentamos emoções anormais.
Essa paixão só pode ser provada
se quisermos perder membros do corpo.

O indizível bate ponto nas bocas
que tentam doutrinar e não conseguem.
É preciso conversar com as janelas
para se entender certos fenômenos,
nos falta capacidade linguística.

Ás vezes, essa coisa sem nome
que nos acomete por inteiro ainda nos matará.
A contínua sensação de afogamento.
O adoecimento é inevitável.

O desenlace é o curativo do dissabor

A luz folclórica da noite acende o meu rosto.
Aquela garota de ontem, abocanha as recordações com sabor de cereja.

Os punhos erguidos diante do céu.
Eu luto covardemente.
Os astros sangram.

Minha matéria, com um trejeito maníaco,
transita entre a epifania e a inexistência.
Aos poucos, o ser, fora das possibilidades, morre mais.

Um manicômio dentro do ouvido.
A ponte que existe entre mim e a bipolaridade.
Eu apago, ela me incendeia.
O cérebro está cheio de cicatrizes.

Despenteio os cabelos e devoro
grandes porções de fragilidades em compota.

No horizonte, o morcego voa.
O tempo que há de vir.
A derrota de uma garota.

Cada vez que os calendários se renovam,
eu desboto.
Sinto que irei desaparecer.

Quero enterrar os meus punhos empapados de sangue
dentro do meu ventre e sentir o cosmos agir.

Nestes tempos, banhada de suor e pavor,
como pétalas de rosa
na certeza de que o gol será contra.
Inaugurarei pequenos incêndios dentro de mim.

O inferno está dentro de um livro

A psicoterapia com as paredes é um passatempo solitário, no qual eu jamais dispensaria. É um exercício que ensina a suportar qualquer sofrimento gritando na cabeça. A dialética da dor.

Ás vezes, me assombro com a vaidade e a megalomania dos escritores, sempre disputando silenciosamente (ou abertamente) com os outros.

Escrever, é como se fosse uma canção emprestada pela natureza, é uma dádiva que não nos pertence, mas cantamos e dançamos, na vã inocência de que somos detentores deste ofício.

Experienciar faz parte do processo, vivenciar situações insalubres torna o método mais produtivo e doloroso. Escrever é uma carta de alforria transcrita por nossos algozes.

Experimentar decepções amorosas extremamente fortes e fulminantes, ser internado num hospital psiquiátrico, sofrer abuso psicológico, não entender as malícias do mundo, provocar sofrimento no seu objeto afetivo e sentir prazer nisso, ser psicologicamente desajustado, não ter habilidades sociais, ser viciado em drogas, enlouquecer dentro da sua cadeia mental, falta de comunhão com a vida, viver o momento inteiramente e sem repressões, assim como o fazem os animais não-humanos. Qualquer acontecimento pode levar um escritor a escrever, se isso for permitido de corpo e alma.

Há um trabalhador irritado e furioso por trás de uma obra literária, uma esposa passiva e fiel por trás de um poema, um falecimento do “eu” por trás de um livro de poesia, uma dona de casa violentada por trás de um soneto, uma auto estima abatida e assassinada por trás de um caderno rabiscado.

Escritores, geralmente, foram vítimas de parceiros sádicos, abusados sexualmente, portadores de transtornos mentais ou vítimas de relações familiares abusivas.

Talvez, por não conseguirem dominar os eventos e os indivíduos nos quais se relacionam, manipulam as palavras e constroem narrações poéticas semi-verdadeiras. Meias verdades.

A obscuridade e a  desordem é a libido da literatura, e nossos agressores são imortalizados numa obra de ficção ou nos versos de um poema.

Jack Kerouac e Neal Cassady foram dois menininhos medrosos. Ken Kesey criou um movimento psicolédico-literário e acreditava que coisas fantásticas aconteciam no refresco elétrico, que coisas celestiais estavam se manifestando. Harte Crane suicidou-se no mar. Hart Crane uniu-se ao mar. Um tiro foi disparado na casa de Hunter S Thompson. “Relaxe, não doerá”. Baudelaire foi o comedor de haxixe.

Existe um mistério na angústia, que em nenhum momento será entendido. Não existe antídoto.

A literatura é uma enfermeira que dorme conosco, porque sentimos medo demais de dormimos sozinhos, e não há nada pior que dormir sozinho. A literatura é uma sindrome do pânico e o perigo é iminente. A literatura é uma oração torta e honesta quando presenciamos a desgraça profunda.

Verifica-se uma fresta em cada construção poética. Ali, reside o professor autoritário e arrogante, o universitário soberbo, o jogo de poder e submissão nos relacionamentos amorosos, o salvador, a vítima e o perseguidor. O inferno não se localiza no centro da terra, o inferno se localiza dentro de um livro, e não há nada pior do que continuar se mantendo vivo.