Sobre cheiros e despedidas

Há um cheiro de doença
e despedida,
no fio dos meus cabelos.

Eles caem no ralo
em mechas grandes,
unidas umas as outras.

Há um cheiro de perfume velho,
no meu peito,
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore
sintetiza minha solidão.
Os frutos caindo no chão
é a dificuldade em chegar até mim.

A doença não me define.
As clínicas psiquiátricas servem
para transformar pessoas                      em ratos de laboratório.
Meus cabelos não param de cair.

As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.

Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.
4:28 de nostalgia.

Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.

Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.
Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de doença nos meus vestidos.

Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.

 

 

A minha grande amiga, psicose.

 

” Como é me enxergar?
Está tudo certo aqui fora?”
Eu perguntei a ela.

A agonia percorria
meu corpo.
Me sentia sem chão.

Ou será que todos nós estamos
e não sabemos?

” O desespero
é o maior inimigo
da sanidade”
Ela me dizia.

A minha grande amiga, psicose.

Noites adentro no escuro.
O cobertor em cima do rosto.
Os móveis me engolindo.

” E se pudessem enxergar
dentro de você,
como se sentiria?.
Ela me perguntou.

A paralisia.
A falta do agir.
As sobrancelhas erguidas.
Os olhares sempre tão debochados
e altivos.

Tudo é memória
e esquecimento.

” Jamais alguém saberá
como é sentir isso.
Esse é o seu grande conforto.”
Ela me dizia.

 

 

 

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Um poema quase esquecido

 

A voz pegando fogo,
as vogais e consoantes
correndo entre as cordas vocais,
saltando e rasgando
a garganta.

A saliva descendo a seco
e o afeto de papel
desfeito no ar,
repousando noutros
abraços inquietos.

Os arranjos nunca couberam
entre nós.
Meu mundo:
lógico e aritmético.
O teu:
sem estados e fronteiras.

Talvez,
o maior erro foi cartografar
os nossos desejos,
em que a palma
da tua mão,
bamba e frágil,
guiasse aos meios e fins.

 

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A calmaria

 

A inquietude
é o silêncio
de um dedo mordido.

A alma afrouxa
o cinto
por estar tão pesada.

Os dedos mordidos
no esparadrapo:
síntese de conflitos.

Mais cadernos e canetas,
menos açúcar.

O sonambulismo
da incerteza.
O azar joga baralho comigo.
Queria ter plantas em casa.

O pensar demasiado.
A tremedeira no corpo.
A desconexão da realidade.

A inquietude
são fotografias mentais
de momentos já vividos.

Visto um casaco verde
com corações rosas.
Conversar consigo mesmo
é sinônimo de criatividade.
Há pessoas tão profundas              quanto uma colher.

Nessa noite,
declaro:
não irei pensar,
nem sequer
por um instante.

As nossas energias
emanam vibrações
para o universo
e ele nos devolve.

A inquietude
é um sujeito
uma mulher
uma árvore morrendo
uma panela
de arroz queimado
na entranha do existir

Olivetti Lettera 35

 

No passar das horas,
meu peito sufocado
pergunta-me se existo.

O corpo agoniza na avenida.
O padeiro faz o pão.
A criança almoça na lixeira.
A senhora tomba na rua.

No compasso dos dias,
meu corpo é poesia
e meus pés escrevem no solo.

Um par de olhos é um livro.
Experienciar o impossível.
Relatar o impreciso.

No passar dos anos,
desconheço-me cada vez mais.
Estou prestes a nascer.

As moedas tilintam ao cair no chão.
Sinto ânsia de vômito quando engulo comprimidos.
A noite tem sabor de algodão.

Meu pulmão está cheio de palavras
e quando aprendo a respirar
as ponho no papel.

Aprender a respirar.
Parada cardíaca para ressignificar.
Respirar sem pretensão.

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A loucura ofende mais que corpos nus

 

Repentinamente,
o desconforto
e a sensação do ridículo.

O pensamento encardido           rosnando sem parar.

Os rostos:
incomoda vê-los,
suas fisionomias e expressões.

Repentinamente,
o algoz
que macera a razão.

A impotência pesa
mais do que uma folha.

A vontade de esconder-se
em um lugar seguro
onde haja só eu.

A loucura ofende mais
que corpos nus.

Isso é sobre aprender
a manusear a dor.

Esse desconforto.
Essa sensação do ridículo.
Essa impotência.

Isso é sobre ser forte
nas condições de ser fraco,
e ser fraco
nas condições de ser forte,
e não se definir
por um instante,
porque um ano tem 365 dias

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Reflexão sobre o balde d’água

 

Baldes d’água jogados
incessantemente no chão
jogados lentamente.

E com o pensamento acelerado,
a mil por segundo,
me pus a observar esta cena prosaica,
embora profundamente dantesca.

– Barulho de respiração profunda –

– Tentativa de orientar o pensamento –

Estou prestes a partir?
E se eu pudesse antecipar o fim?
Seria egoísmo?

Os baldes d’água jogados
incessantemente no chão
tinham um significado implícito?

– Esforço pra respirar –

– Pensamento desorientado –

Os baldes d’agua dialogaram
com o meu momento íntimo de dor,
me deixando mais ilhada e sem ar.

Nenhuma droga alteradora da percepção
foi mais reveladora
do que aqueles malditos baldes d’água.

 

Somos muitos nesse exato momento

 

O cabelo no chão

Estou onde acredito estar?

A indecisão

As vozes
sempre tão mórbidas e sábias,
mas aprende-se com elas,
aprende-se a ser mais forte
como nenhum tombo ensina

A indecisão

O rosto pálido no espelho
O coração batendo forte
20 por 18

Um nó no peito

Eu era aquela do espelho?

A indecisão

O remédio na mesa

O mundo ainda continua girando

Não sou a única
Somos muitos nesse exato momento

Isso não é uma poema dadaísta.

 

Nesses dias,
os acontecimentos
tem gosto de terra
e o agora é passageiro

Eis nós aqui,
sentados no sofá,
rememorando causos antigos
sorrindo com os dentes sujos de sangue.

Sentindo a energia um do outro
e se assustando com isso.

Aquela tesoura…..
eu tinha medo dela.

Sim, sou esponja
e isso me deixa estarrecida.

Nesses dias,
sento de frente
pra máquina de escrever
e ouço os gansos gritando.

Observo a sala vazia e
ensaio o que vou dizer
a minha consciência.

Sim, sou uma não-atriz
da minha própria mentira
e isso me atraí.

Nesses dias,
sinto-me como o Jack
do Clube da luta
indo em grupos de apoio
receber acolhimento,
pois o mundo não oferece isso.

Se sentimentos negativos
roubam-lhe a alegria de viver,
procure-nos.

Sim, recebi a moeda verde
e foi carinhoso.

Observo a casa vazia
e percebo que a solidão
é uma das formas de
entender a si mesmo.