O filme

Ás vezes, como uma expectadora,
observo cada um representando o seu papel,
observo cada um preso na ratoeira da sua atuação.

Mas, estamos embaixo do mesmo sol,
estamos embaixo da mesma lua
e caminhamos no mesmo asfalto.

A madrugada choraminga enquanto os mendigos assistem tevê.
A madrugada é uma nação apodrecida e solitária.

As ideologias são trituradas por cães raivosos
e no chão sobram apenas restos tristes e envelhecidos.

É preciso coragem para quebrar a redoma de vidro que aprisiona o coração.

De tempo em tempo,
subimos a escada que nos leva a euforia
e experimentamos emoções anormais.
Essa paixão só pode ser provada
se quisermos perder membros do corpo.

O indizível bate ponto nas bocas
que tentam doutrinar e não conseguem.
É preciso conversar com as janelas
para se entender certos fenômenos,
nos falta capacidade linguística.

Ás vezes, essa coisa sem nome
que nos acomete por inteiro ainda nos matará.
A contínua sensação de afogamento.
O adoecimento é inevitável.

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O desenlace é o curativo do dissabor

A luz folclórica da noite acende o meu rosto.
Aquela garota de ontem, abocanha as recordações com sabor de cereja.

Os punhos erguidos diante do céu.
Eu luto covardemente.
Os astros sangram.

Minha matéria, com um trejeito maníaco,
transita entre a epifania e a inexistência.
Aos poucos, o ser, fora das possibilidades, morre mais.

Um manicômio dentro do ouvido.
A ponte que existe entre mim e a bipolaridade.
Eu apago, ela me incendeia.
O cérebro está cheio de cicatrizes.

Despenteio os cabelos e devoro
grandes porções de fragilidades em compota.

No horizonte, o morcego voa.
O tempo que há de vir.
A derrota de uma garota.

Cada vez que os calendários se renovam,
eu desboto.
Sinto que irei desaparecer.

Quero enterrar os meus punhos empapados de sangue
dentro do meu ventre e sentir o cosmos agir.

Nestes tempos, banhada de suor e pavor,
como pétalas de rosa
na certeza de que o gol será contra.
Inaugurarei pequenos incêndios dentro de mim.

O inferno está dentro de um livro

A psicoterapia com as paredes é um passatempo solitário, no qual eu jamais dispensaria. É um exercício que ensina a suportar qualquer sofrimento gritando na cabeça. A dialética da dor.

Ás vezes, me assombro com a vaidade e a megalomania dos escritores, sempre disputando silenciosamente (ou abertamente) com os outros.

Escrever, é como se fosse uma canção emprestada pela natureza, é uma dádiva que não nos pertence, mas cantamos e dançamos, na vã inocência de que somos detentores deste ofício.

Experienciar faz parte do processo, vivenciar situações insalubres torna o método mais produtivo e doloroso. Escrever é uma carta de alforria transcrita por nossos algozes.

Experimentar decepções amorosas extremamente fortes e fulminantes, ser internado num hospital psiquiátrico, sofrer abuso psicológico, não entender as malícias do mundo, provocar sofrimento no seu objeto afetivo e sentir prazer nisso, ser psicologicamente desajustado, não ter habilidades sociais, ser viciado em drogas, enlouquecer dentro da sua cadeia mental, falta de comunhão com a vida, viver o momento inteiramente e sem repressões, assim como o fazem os animais não-humanos. Qualquer acontecimento pode levar um escritor a escrever, se isso for permitido de corpo e alma.

Há um trabalhador irritado e furioso por trás de uma obra literária, uma esposa passiva e fiel por trás de um poema, um falecimento do “eu” por trás de um livro de poesia, uma dona de casa violentada por trás de um soneto, uma auto estima abatida e assassinada por trás de um caderno rabiscado.

Escritores, geralmente, foram vítimas de parceiros sádicos, abusados sexualmente, portadores de transtornos mentais ou vítimas de relações familiares abusivas.

Talvez, por não conseguirem dominar os eventos e os indivíduos nos quais se relacionam, manipulam as palavras e constroem narrações poéticas semi-verdadeiras. Meias verdades.

A obscuridade e a  desordem é a libido da literatura, e nossos agressores são imortalizados numa obra de ficção ou nos versos de um poema.

Jack Kerouac e Neal Cassady foram dois menininhos medrosos. Ken Kesey criou um movimento psicolédico-literário e acreditava que coisas fantásticas aconteciam no refresco elétrico, que coisas celestiais estavam se manifestando. Harte Crane suicidou-se no mar. Hart Crane uniu-se ao mar. Um tiro foi disparado na casa de Hunter S Thompson. “Relaxe, não doerá”. Baudelaire foi o comedor de haxixe.

Existe um mistério na angústia, que em nenhum momento será entendido. Não existe antídoto.

A literatura é uma enfermeira que dorme conosco, porque sentimos medo demais de dormimos sozinhos, e não há nada pior que dormir sozinho. A literatura é uma sindrome do pânico e o perigo é iminente. A literatura é uma oração torta e honesta quando presenciamos a desgraça profunda.

Verifica-se uma fresta em cada construção poética. Ali, reside o professor autoritário e arrogante, o universitário soberbo, o jogo de poder e submissão nos relacionamentos amorosos, o salvador, a vítima e o perseguidor. O inferno não se localiza no centro da terra, o inferno se localiza dentro de um livro, e não há nada pior do que continuar se mantendo vivo.

Carinhoso pra poder ferir

As cócegas,
direcionadas em pontos específicos,
me adoeceram.

Soubeste bem como aplicá-las.
Entre espamos e risos convulsivos,
teceu-se o ridículo.

O tempo foi o grande aliado da angústia.
A mansidão de teus dedos coçando a minha pele foi injusta.

Houve singularidade nos objetivos.
Os aposentos da casa testemunharam o momento,
e transferiram passes energéticos para mim.

Qualquer descompasso sobrou.
Pedregulhos, restos de lixo, fetos abortados.
Resíduos da tua psicologia.

A política dos teus desejos é austuciosa.

A enxaqueca nos olhos e a insônia revelam a desordem.
A caligrafia da tua saliva ficou marcada na minha carne.
Há uma carta atrás do teu tato.
Não pude lê-la, tua consistência é densa.

Essa orgia que é o carinho,
amputa a racionalidade.
Deixei as portas abertas,
e você entrou.

Se eu tivesse morrido, minhas máquinas de escrever teriam chorado

Naquela tarde, o motorista do Uber me disse que nos seus vinte e sete anos de idade
não passou pelo o que eu estava passando naquele momento.

Não podia ser verdade!.

Pessoas agonizam todos os dias em pontos diferentes do mundo. Eu era uma delas.
Pessoas entre a vida e a morte,
deitadas na cama reclinável do hospital,
cospem na cara das outras,
como num insulto de despedida.
Pessoas ficam paralisadas no sofá e não saem dele
por medo do que irá acontecer ao levantarem.

David Bowie tocava ao fundo.
Minha alma iria sair do corpo:
“Troca de estação!”, eu disse.

David Bowie é maravilhoso,
mas toca no âmago e eu estava pirando demais.

Desculpa pela rejeição, meu camarada,
mas hoje consigo te escutar.
Não desculpo o motorista,
eu não queria ter conhecido o hálito de suas intenções.

Aquela senhora me olhando com o olhar penetrante
e batendo com a concha metálica na mão me deixou apavorada.
Ouvi metáforas faiscando em meu ouvido.
Jamais consigo esquecer.

Ritual de morte na garagem.

Não foi o prenúncio de que alguma calamidade fosse vir.

Eu estava crescendo vertiginosamente
e minha cabeça aumentava igual a uma bexiga de aniversário.
Eu inspirava, ela crescia.
Eu expirava, ela diminuia.

Pensamentos são carros que correm a mil por hora.
Você tenta entrar dentro deles em movimento e não consegue.

Sandy Lehmann-Haupt não sabia viajar nos campos inexplorados da mente.
Sandy não queria conhecer a fauna e flora que nunca fora vista.
Sandy tinha medo.
Sandy não queria conhecer outra geografia.
Sandy, temos medo.
Volte pra casa e abrace os seus pais.
Essa viagem é só de ida amigo, corra enquanto você tiver pés.

Também quero voltar pra casa,
e receber uma colher de rivotril na boca, dada pela minha amada mãe.
Ei mãe, meus olhos estão fechando.
Ei mãe, estou ficando calma.
Não ficarei triste.
Não nesta noite.
Me abrace, mãe.

Apesar dos dias serem assim, eu viveria tudo novamente

Todo o dia eu abro a porta, sento no quintal e espero o vento chegar.
Você poderia vir com ele, como num pesadelo lúcido,
e mastigar estilhaços de vidro junto comigo.

Teus carinhos antecedem a tragédia e eu entendo bem isso.
É teu sentido de existir.
Costurar conflitos enquanto deixa a fumaça fluir.

Abraços nunca serviram para ferir.
Não escondo facas nos braços.
Abraços são edredons que servem para aquecer em dias frios.
Eu quis aquecer teu coração, jamais te machucar.

Você roubou um pouco de mim e dividiu a tua presença embaçada.
Teu modo de ser é como a textura da areia sendo apertada entre as mãos.

As frustrações são traidoras,
elas nos ensinam que não tornaremos a repetir os mesmos erros,
mas repetimos por estarmos viciados em sentir qualquer loucura
que revolva tudo ao redor e nos deixe completamente desabrigados.

Uma casa é feita de concreto ou de carne e osso?.
A casa na qual me abriguei não tinha chão e nem teto,
era disforme e barulhenta, mas cheia de vida e sonhos.
O som dela era de uma voz que falava sobre suas convicções de forma cativante.

Falta fôlego, falta ar, falta clareza nos sentimentos.
Mas, ainda assim, você poderia vir junto com ele,
como num sonho lúcido.

Os barcos naufragam na pilha de nervos

Há um azedume de lágrimas e suor
em cada raio de sol batendo no meu rosto.
O padecimento não será meu afrodisíaco.

Eu não gosto de brinquedos quebrados.

Brinquedos quebrados não mostram seus mecanismos,
não mostram que estão quebrados.

Cada bolha de tinta impressa no papel é um universo.
Cada bolha de tinta impressa no papel é uma derrota.

Eu quero fechar os olhos e escutar o que o silêncio tem a dizer.

O telhado faz meu olho marejar.
Um congestionamento de pipas no peito.
Objetos não têm sentimento.

O encontro de personas me fazem golfar.

Cada milímetro do corpo fedendo a desgraça
e enfeitiça com a representação.

Um copo de cachaça é mais íntegro.
Um copo de cachaça demonstra seu desígnio.

Eu não gosto de brinquedos quebrados.
Eles não são reais.

A paisagem e suas emboscadas

As janelas de ônibus são traiçoeiras.
Ocorre que, no silêncio da mente, surge a dualidade das paisagens,
e elas dizem muito.

A consciência colide com qualquer coisa inexata,
sem forma e conteúdo, que aparece sem avisar.
Existe também os acontecimentos concretos
que a falta de desatenção permite que se manifeste.

Lupa: Alter ego das janelas de ônibus.

Ora, me expandem.
Ora, me diminuem.

Desembaraçar os antagonismos.
Pisar em ovos.

Minhas pálpebras estremecem quando penso em você.

Eu queria ver mais do que os olhos podem mostrar.

Observar pra escutar atentamente.
Escutar pra enxergar com clareza.

Essa entidade, a paisagem,
é uma armadilha,
é um sol que cega os olhos,
é um punhal que mastiga a pele.

Paisagem é coletivo de inseguranças.

Meus ossos descansam perto do mar

Naquela noite eu quis estrangular as palavras.
Não queria dizer mais do que deveria ser dito,
e você entende o quanto isso mexe comigo.

Vamos destruir os dias e sorrir em cima da ruína,
eu quero ver tua boca pintada de vermelho
e teu corpo virado do avesso.

Eu estava contigo a distância e meus olhos tremiam.
Eu podia receber os teus sinais.
Vamos ao topo, suba comigo,
não pode ser tão ruim assim.

Eu vejo uma cor quando fecho os olhos.
Ela é verde.
Qual é sua cor preferida?.

Vamos destruir os dias e sorrir em cima da ruína,
eu quero ver tua boca pintada de vermelho
e seu corpo virado do avesso.

 

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