O lamento de uma bicicleta

 

Aquela bicicleta
tinha um olhar triste.

Ela refletia sobre
o corpo em chamas
que estava sob si
e que cortava o vento
em questão de segundos
e que sorria sem razão.

Aquela bicicleta tinha
um olhar lânguido.

Sem autonomia
ela tolerava a liberdade
de quem nela subiu.
Sem protestar
ela seguia em frente
enquanto quem a guiava
sentia a alma se dissolver.

Uma fuga
Um desencontro
Uma partida

Aquela bicicleta era uma droga
e ela própria sabia disto.

O corpo era maior
e ela era menor,
só que a circunstância
ligava o corpo a ela
e ela ao corpo

e como numa fatalidade
das coisas incompreendidas
houve a despedida.

 

Isso é tão tumblr

 

 

Surto psicótico
Crise de ansiedade
Privação do sono

Isso é tão tumblr

Mas não

Delírio vivido em corpo
e transmutado em palavras.

Depressão
Cabelo caindo
Dissociação da realidade

Isto é tão tumblr

Mas não,
orgulho não

Alucinações
Glândula pineal
Telepatia
Movimento involuntário dos olhos
Pálpebras pesadas

Isto é tão tumblr

Mas não,
é o excesso de sentir
quando a vida está dormente.

 

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Um homem doente me olhava
me olhava.
Seus olhos emanavam vazio
um vazio com cheiro de esperteza.
Ele estava lá,
eu também.
Por motivos absolutamente diferentes.
Mas estávamos no mesmo barco.
E embriagados de lucidez.
Ele disse: ”Foi injusto te colocarem aqui”
Talvez fosse.
Talvez fosse.
Talvez não fosse.
Talvez não fosse.
Os remédios,
a cama contra a porta,
a inexorável dor que unia todos nós
num único lugar.
Os tristes fatos.
Um homem doente me olhava
e me dava o seu telefone,
num apelo suplicante.
Talvez um dia ele também estivesse fora daquela roubada
e sua irmã pudesse ajudá-lo.
Mas não,
não poderia.
Só ele mesmo poderia se ajudar.
Cada um suporta seu fardo.
Ou não.
Ou não.
Essas rasteiras são fundamentais,
diziam.
Pra aprender qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Por motivos absolutamente diferentes.

Hart crane no mar
e onde haveria eu de estar?

Cosendo quimeras numa cama
entre o quarto e a sala de estar?

Não se sabe.

Por ora, implodem-se os enigmas,
as dúvidas,
as ideias que não cabem mais.

Por ora, descobre-se que a linguagem é a escapatória,
mas o perigo é iminente.

A morte está a espreita pelo gorduroso excesso de existir.

Tantas vezes comedida.
Tantas vezes apatia.
Tantas vezes nas partidas um naco do coração enrolado num pedaço de jornal para constatar que um dia ele existiu.

Tantas vezes o céu explodindo em cores num quadro pintado por mãos bêbadas
e a loucura expiando pecados num tribunal estéril.

É poesia mal comida.
Comida mal lida.

É a iminente rasteira
e os olhos estrangulados beijando o chão
como num pacto de paz com o irreversível.

Tantas vezes vírus vivendo meia vida,
parasita de paraísos artificiais.

Tantas vezes o inconcluso
dia após dia
num jogo pueril de ser ou não ser.

Se vestidos falassem eles se lamentariam, mas vestidos não falam, então nada diriam.

O vestido pegou fogo suavemente,
o desespero escorria entre o pano.
Não houve dor,
só silêncio.
O fogo não dançou sob a pele.

As feridas do vestido estavam expostas e conversavam comigo.

Por vezes, a vontade de queimar ressurgia.

E nenhum poeta estará a salvo, meu amigo.

Nem os poetas.
Muito menos eles.
Muito menos eles.

Intrépidos viajantes

Como kesey dizia: cinema das pálpebras
A loucura morando dentro do olho e

devorando-o.
Imagens vívidas, viagens ao outro lado do mundo.

Talvez ela existisse e isso enchi-a de felicidade – dava para ouvir a saraivada de risos saborosos
das pessoas de todos os tipos vindo contar
como elas conseguem viver e se manterem sanas por aqui.

É comovente o mistério da existência,
só que as costas precisam ser fortes
pra aguentar o peso do mundo,
o peso de tudo,
e não acabar parado de bengala no meio da estrada.

 

Como iniciar incêndios

A metafísica não explica
o que as mentes fazem conosco
quando tentam fundir-se uma na outra
ao cruzar de olhos,
ao tocar de peles com fragmentos do  extraordinário
que faíscam e
brilham e
queimam.

Ó, como faíscam e
brilham e
queimam
ao encontro uma da outra.

(e é possível tocar o espaço)

E nestes dias,
entre tantos outros desdias,
falta fôlego,
fôlego de vida muito sentida
fôlego de estilhaços que enlouquecem
fôlego de vida que desfalece e      renasce nos braços do outro
pra ser imortal durante algumas  temporadas.

O tempo só complica.
O conceito.
O aguardo.
A paz que não se estabiliza no paliativo,
no engano da mente
que faz morada no inconsciente coletivo
Então, segura a rédea,
escuta o papel,
com ele não tem ficção
é relato intimista
conflito que se materializa em palavra.
Nas experiências vividas no solo,
ninguém estava.
Só teus olhos,
tua mente,
teu sentido capta.

E o que fazer?
Pegar a máquina de escrever e dizer,
golpear.
E Bandini ri,
Arturo Bandini ri
ao ver os pássaros voarem a cada estalada na máquina.
Ele diz que existir é marretada na psique
e ninguém nunca saberá
ninguém nunca saberá qual será a carta que tem na sua manga
ou nos bolsos da tua blusa que segura isqueiro, fumo e caneta.

Por que de vício não basta um,
tem que ter mais algum
e fazer a mente decolar
enquanto bate na máquina de escrever de noite
com medo de alguém escutar o lamento audível.
Então, que se fodam as expectativas sociais
porque quero fazer barulho e datilografar
sem frescura de perturbar.
Não seguro a letra,
nem a fala
deixo ela rolar.