Discurso sobre um interior despedaçado

Em madrugadas intranquilas,
entre baratas e garrafas velhas de vinho em volta da cama,
recordo-me que não sei o que fazer.

Qualquer lembrança desconcertante surge
e diz-me o quanto sou impotente perante as minhas emoções.

Meu pensamento dança entre facas eretas que me cortam
e agonizo futilmente a cada fim.

Eu já nem me lembro como cheguei até aqui.

Eu só queria desenvolver a faculdade de esquecer.
Esquecer a tua voz,
a tua expressão facial dura,
o teu chapéu preto tão característico repousando na cabeça.

Pergunto-me onde minha serenidade se perdeu,
entre as indas e vindas,
um acúmulo de dores se deu.

Existe um alfabeto de incertezas dentro dos teus intentos.
Um desafeto pelas cousas que não sara.
Uma instabilidade que deixa teus pés atados pela doença emocional.

Eu abro a torneira das impossibilidades
e limpo o meu rosto,
mas a água se transmuta em sangue
e eu me sinto participante de um crime contra mim mesma.

O mito romântico ainda me matará.

Eu já cai e estou no chão,
escutando o som dos teus monólogos verbais exaustivos que rondam a minha mente
e causam-me desgaste emocional.

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A poética dos que não conheceram a verdadeira liberdade, são apenas recortes confusos e fragmentados do ego.

Há, sobretudo, comportamentos que rementem a um tempo remoto.
Pensamentos e emoções congelados,
sempre regidos por valores ultrapassados.

É inexprimível a impotência
mediante a engenharia do fascínio.

Desarma
ou arma?.

O ardor do apego distraí a mente,
não toca a alma.

As ficções da psique nos tornam decadentes.

O poeta é um perdedor,
porque ele leva calor ao outro por meio da palavra,
não do espírito.

O lirismo é a grande oportunidade de imortalizar o fracasso.

As engrenagens do romantismo são alucinógenas,
trazem consigo alucinação e euforia.

Com crise de ansiedade nada é real. Tudo fica distante. Tudo é uma cópia, da cópia, da cópia .

Abracei-o com o pensamento acelerado e debulhei-me em lágrimas.
Não é fácil racionalizar a avalanche de pensamentos irracionais que surgem para amedrontar.

Sons da natureza, chá de camomila, melatonina.

Nenhum paliativo acalma.

Com crise de ansiedade o corpo fica debilitado, fraco, desanimado, frágil, débil, inválido. Sem capacidade de agir.

Privação do sono faz o cérebro comer a si mesmo.
Jack ficou 6 meses com insônia antes de conhecer Tyler Durden.

Dramin na veia.

Insônia presente.

Somente sobrou a barbeiragem no meu braço. Uma grande mancha cor uva.

Com crise de ansiedade tudo fica distante.

A fraqueza corporal.
A mente indecentemente trabalhando sem parar.

Centelhas de medo se desprendendo do cérebro em brasa.

Tudo é uma cópia,
da cópia,
da cópia.

A fábula psicótica dos pensamentos narrando sem cessar.
Buscar racionalizar as narrativas que surgem é sinônimo de fracasso.
Acreditar nelas nem que seja por um instante, para depois elas se dissolverem naturalmente, sem esforço.

E sempre se dissolve.

O desarranjo é um animal mamífero – parte II

Na superfície da minha alma, existe uma luz fraquejante,
e eu ainda não consigo ver toda a sorte de grandezas que há em seu interior.

Meu ópio é o mundo externo:
a reunião de cores, formatos e eventos similares.

O desarranjo é um animal mamífero,
sempre gerando os mesmos filhos.

A angústia, o ressentimento, o egoísmo.

Pensar é uma linha de produção.

Fábrica de ilusões.

O gorduroso excesso de existir ainda nos matará

A linguagem é só uma parte expressa,
de todas as outras que evidencia uma existência inquieta,
celebra as cicatrizes em meio a uma chuva de arroz.

A realidade embalada num papel celofane azul.

A natureza é o urinol de Duchamp,
uma obra de arte incompreendida,
usada como um instrumento de escapismo,
mero enfeite para anestesiar o descontentamento,
esse vazio de furar num encontro consigo mesmo.

O desabrochar do brilho solar:
banquete de projeções moldadas pelo olhar.
As borboletas, os pássaros, as gaivotas, os patos, as joaninhas, querem ser oxigênio sensorial.

O sussuro onírico da contemplação.
Fragrância de cereja.
Balé de beija flores.

Demolir o teatro de significados.
As coisas belas não cumprem protocolos sociais.

Existir é andar de mãos dadas com uma mão morta

As pequenas rachaduras ainda me jogarão em cima de um carro em movimento.

Identificação com a mente.

O suicídio é como um copo de água bebido num dia quente,
é como um pássaro silvestre cantando.

Uma tartaruga saiu da minha boca.
Ela riu do meu apego extremo aos pensamentos e os seus olhos lápis-lazúli me mostrou a minha ruína emocional.

Estar presa num corpo é tão primitivo.

Por não saber como lidar com a anatomia da insensatez,
prefere o findar.

O desarranjo é um animal mamífero – parte I

A fuga da razão dá formato a algo disforme. Um cão que vai comendo a pele, os poros, os ossos, mastigando a mente humana das beiradas as entranhas, deixando-nos nus e entregues a loucura.

Duelar contra a edificação corpórea em madrugadas angustiantes, no limiar entre a vida e a morte.

Espetáculo de dentes moídos, limados em nome de algo incompreensível.

A chuva de alfinetes que descem de um olho que chora.

Em cada vulnerabilidade existencial existem batimentos cardíacos e respirações estrangeiras.

Há um movimento de insanidade nas plantas, algas e fungos, enquanto a humanidade persiste em desprezar a descompostura.

O ego é um calçadão. Ele sempre quer atravessar as pessoas.

A saliva das noites mal-dormidas
deixa a alma com ranço,
sabor gorduroso.

A enxaqueca corporal que levará
a cura das vísceras expostas.

Chora casa,
chora comigo
não deixa o meu peito entalado,
traga-me o orgasmo do carinho maternal.

Demole os tijolos do passado,
esse copo de vinho estragado que deixa os neurônios azedos.

Voa mosquito,
pousa no meu corpo.

A vida é entrega e partilha.

Os meus movimentos são pesados quando tomo banho.

O automatismo.
A violência simbólica.

O ego é um calçadão.
Ele sempre quer atravessar as pessoas.

Ensaio sobre o desassossego

Ô, nó, só o coração suporta o vendaval que deixa os seus vasos sanguíneos embaraçados.

Borboletas no estômago: digital da euforia.

Numa noite abafada, cheirando a fumaça de carro, mato quente e insegurança, segurei o feto da fantasia entre os meus dedos trêmulos e confusos.

Observei-o.

A agressão da imaginação embriaga.

Deixei sangrar.
Por ora, sangra.
Até os olhos, enfim, abrirem.

A nostalgia é passiva.
Esbofeteia a razão.

As mãos se lambuzam de sangue melado e vivo – cozido – e pintam quadros do absurdo.

Festim

Por vezes, subitamente,               qualquer coisa cai e espatifa,
e a estátua do desconsolo,
escultura de gritos,
fica ao redor do corpo vivo.

A lixa rasgando a testa,
a dor de cabeça suicida
amamenta esse filho que é o conflito.

A agonia, num processo de auto antropofagia,
come a carne e chupa os ossos.

Não reconheço esta pele.
Não reconheço estes dedos.
Estranho estes pés.

A maçaneta da porta se torna um abutre.
O rosto, uma torneira de personificações.
O cérebro que visto, uma coroa de arame.

Respirar: um eletrochoque.

Estou prestes a parir um campo de concentração.

A noitinha emana um amarelo quente.

A minha consciência, berra.