Carinhoso pra poder ferir

As cócegas,
direcionadas em pontos específicos,
me adoeceram.

Soubeste bem como aplicá-las.
Entre espamos e risos convulsivos,
teceu-se o ridículo.

O tempo foi o grande aliado da angústia.
A mansidão de teus dedos coçando a minha pele foi injusta.

Houve singularidade nos objetivos.
Os aposentos da casa testemunharam o momento,
e transferiram passes energéticos para mim.

Qualquer descompasso sobrou.
Pedregulhos, restos de lixo, fetos abortados.
Resíduos da tua psicologia.

A política dos teus desejos é austuciosa.

A enxaqueca nos olhos e a insônia revelam a desordem.
A caligrafia da tua saliva ficou marcada na minha carne.
Há uma carta atrás do teu tato.
Não pude lê-la, tua consistência é densa.

Essa orgia que é o carinho,
amputa a racionalidade.
Deixei as portas abertas,
e você entrou.

Anúncios

Se eu tivesse morrido, minhas máquinas de escrever teriam chorado

Naquela tarde, o motorista do Uber me disse que nos seus vinte e sete anos de idade
não passou pelo o que eu estava passando naquele momento.

Não podia ser verdade!.

Pessoas agonizam todos os dias em pontos diferentes do mundo. Eu era uma delas.
Pessoas entre a vida e a morte,
deitadas na cama reclinável do hospital,
cospem na cara das outras,
como num insulto de despedida.
Pessoas ficam paralisadas no sofá e não saem dele
por medo do que irá acontecer ao levantarem.

David Bowie tocava ao fundo.
Minha alma iria sair do corpo:
“Troca de estação!”, eu disse.

David Bowie é maravilhoso,
mas toca no âmago e eu estava pirando demais.

Desculpa pela rejeição, meu camarada,
mas hoje consigo te escutar.
Não desculpo o motorista,
eu não queria ter conhecido o hálito de suas intenções.

Aquela senhora me olhando com o olhar penetrante
e batendo com a concha metálica na mão me deixou apavorada.
Ouvi metáforas faiscando em meu ouvido.
Jamais consigo esquecer.

Ritual de morte na garagem.

Não foi o prenúncio de que alguma calamidade fosse vir.

Eu estava crescendo vertiginosamente
e minha cabeça aumentava igual a uma bexiga de aniversário.
Eu inspirava, ela crescia.
Eu expirava, ela diminuia.

Pensamentos são carros que correm a mil por hora.
Você tenta entrar dentro deles em movimento e não consegue.

Sandy Lehmann-Haupt não sabia viajar nos campos inexplorados da mente.
Sandy não queria conhecer a fauna e flora que nunca fora vista.
Sandy tinha medo.
Sandy não queria conhecer outra geografia.
Sandy, temos medo.
Volte pra casa e abrace os seus pais.
Essa viagem é só de ida amigo, corra enquanto você tiver pés.

Também quero voltar pra casa,
e receber uma colher de rivotril na boca, dada pela minha amada mãe.
Ei mãe, meus olhos estão fechando.
Ei mãe, estou ficando calma.
Não ficarei triste.
Não nesta noite.
Me abrace, mãe.

Foram anos difíceis e eu só queria me manter sã antes deles terminarem .

Eu tremia. Meus braços e pernas estavam fora de si. Eles tremiam sem parar. Era como se uma corrente de energia impulsionasse coisas esquisitas dentro e fora de mim. Eu era uma carta fora do baralho e o universo não iria se compadecer com o meu desequilíbrio.

Eu sempre li sobre pessoas que perdiam o controle sobre suas mentes e piravam completamente, num estalar de dedos.
Num belo dia, elas vão na padaria comprar pão e simplesmente sentem que alguma coisa muito ruim vai acontecer. E acontecia. Elas se sentiam engolidas por um dragão.

Eu via vultos pretos e ouvia a casa estalando. Eu sentia um bolo na garganta. Nem ao menos sabia em que ano estava.

Me pergunto como os Merry Pranksters conseguiam levar a cabo o estilo de vida que eles sustentavam todos os dias. Vivendo coisas tão malucas dentro daquele ônibus.

Sempre tive fixação por bocas de fogão, trincos de porta e olhadelas sem razão ao redor, mas jamais acreditei que as coisas iriam tomar rumos alarmantes.

Um poeta me disse que eu sempre fui doida e que isso está na cara, como se ele, que se debateu no chão após usar lsd e que sofreu despersonalização fosse uma referência de civilidade.
Somos loucos, caro poeta, e nossos olhos estão cheios de abismos. Você me despreza porque eu sou um espelho do que você é, caro amigo poeta.

Teve uma noite em que fechei os olhos e tentei relaxar, mas vinham as vozes falando e eu achava que talvez não fosse a psicose, talvez fosse um fenômeno espiritual, mas não, era delírio.
Meu psiquiatra estava certo ao dizer que desde tempos remotos as pessoas tentam explicar coisas inexplicáveis por meio da religião, e por isso que fazia sentido eu ter pensado que era espiritual, sendo que não era.

Admiro quem usa drogas que induzem ao estado xamânico, tem que se ter uma forte dose de coragem para experienciar o que virá, e depois que eu li ”As portas da percepção” fiquei apaixonada pela ousadia do Aldous Huxley.
Queria ter tido um amigo igual a ele no colegial, certamente minha adolescência não teria sido medíocre.

Quando eu estava na faculdade eu via uma série de pessoas tentando ser maneiras e descoladas,               engolindo teorias e consumindo arte conceitual.
Já eu, só queria ler, ir pro bar beber cerveja e me sentir completamente apaixonada por esse cão que são os vintes e poucos anos.

Bukowski foi um pai pra mim. Me tornei sua filha em 2014, após ler ”Misto quente”. Naquele livro podia se ver um homem que sabia lutar com a vida, assim como se luta com um touro.

Hoje, eu me esforço para me manter na linha,
para não fazer vexames novamente,
para não ser vítima do terror psicológico,
para não deteriorar as relações com as pessoas que convivo.
Não faço isso para ser normal, mas para não deixar que esta chama que habita dentro de mim me consuma por completo.

Apesar dos dias serem assim, eu viveria tudo novamente

Todo o dia eu abro a porta, sento no quintal e espero o vento chegar.
Você poderia vir com ele, como num pesadelo lúcido,
e mastigar estilhaços de vidro junto comigo.

Teus carinhos antecedem a tragédia e eu entendo bem isso.
É teu sentido de existir.
Costurar conflitos enquanto deixa a fumaça fluir.

Abraços nunca serviram para ferir.
Não escondo facas nos braços.
Abraços são edredons que servem para aquecer em dias de frios.
Eu quis aquecer teu coração, jamais te machucar.

Você roubou um pouco de mim e dividiu a tua presença embaçada.
Teu modo de ser é como a textura da areia sendo apertada entre as mãos.

As frustrações são traidoras,
elas nos ensinam que não tornaremos a repetir os mesmos erros,
mas repetimos por estarmos viciados em sentir qualquer loucura
que revolva tudo ao redor e nos deixe completamente desabrigados.

Uma casa é feita de concreto ou de carne e osso?.
A casa na qual me abriguei não tinha chão e nem teto,
era disforme e barulhenta, mas cheia de vida e sonhos.
O som dela era de uma voz que falava sobre suas convicções de forma cativante.

Falta fôlego, falta ar, falta clareza nos sentimentos.
Mas, ainda assim, você poderia vir junto com ele,
como num sonho lúcido.

Stelazine

Minhas entranhas queimam feito água potável.
Um alfabeto preso em cada acontecimento.
O poderia ter sido sangue escarlate.

Maconha.
Meditação.
Chá de camomila.
Rivotril.
Ativar os chakras.

Nada adiantou

Os seres inanimados gemem toda vez que perco a irmandade com as coisas.

Bukowski.
John Frusciante.
Jack Kerouac.
Cerveja.
Hunter S Thompson.
Transtorno afetivo bipolar.

Nada me libertou.

Estou intoxicada.
Um playground dentro da minha cabeça.
A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio e a cada 3 segundos, uma pessoa tenta.

Escrever poema ou tomar uma caixa de anti-psicótico?.
Sigo escrevendo.
Que seja!

Os livros na estante não me deram respostas,
os bares me enganaram
e as sensações destruíram meu senso de sobrevivência.

Eu quero morrer na selva igual o Alex Supertramp.

Que seja pelo sentimento.
Que seja pela fragilidade incompreendida.
Que seja pelo sarcasmo das incertezas.

Os barcos naufragam na pilha de nervos

Há um azedume de lágrimas e suor
em cada raio de sol batendo no meu rosto.
O padecimento não será meu afrodisíaco.

Eu não gosto de brinquedos quebrados.

Brinquedos quebrados não mostram seus mecanismos,
não mostram que estão quebrados.

Cada bolha de tinta impressa no papel é um universo.
Cada bolha de tinta impressa no papel é uma derrota.

Eu quero fechar os olhos e escutar o que o silêncio tem a dizer.

O telhado faz meu olho marejar.
Um congestionamento de pipas no peito.
Objetos não têm sentimento.

O encontro de personas me fazem golfar.

Cada milímetro do corpo fedendo a desgraça
e enfeitiça com a representação.

Um copo de cachaça é mais íntegro.
Um copo de cachaça demonstra seu desígnio.

Eu não gosto de brinquedos quebrados.
Eles não são reais.

A paisagem e suas emboscadas

As janelas de ônibus são traiçoeiras.
Ocorre que, no silêncio da mente, surge a dualidade das paisagens,
e elas dizem muito.

A consciência colide com qualquer coisa inexata,
sem forma e conteúdo, que aparece sem avisar.
Existe também os acontecimentos concretos
que a falta de desatenção permite que se manifeste.

Lupa: Alter ego das janelas de ônibus.

Ora, me expandem.
Ora, me diminuem.

Desembaraçar os antagonismos.
Pisar em ovos.

Minhas pálpebras estremecem quando penso em você.

Eu queria ver mais do que os olhos podem mostrar.

Observar pra escutar atentamente.
Escutar pra enxergar com clareza.

Essa entidade, a paisagem,
é uma armadilha,
é um sol que cega os olhos,
é um punhal que mastiga a pele.

Paisagem é coletivo de inseguranças.

Meus ossos descansam perto do mar

Naquela noite eu quis estrangular as palavras.
Não queria dizer mais do que deveria ser dito,
e você entende o quanto isso mexe comigo.

Vamos destruir os dias e sorrir em cima da ruína,
eu quero ver tua boca pintada de vermelho
e teu corpo virado do avesso.

Eu estava contigo a distância e meus olhos tremiam.
Eu podia receber os teus sinais.
Vamos ao topo, suba comigo,
não pode ser tão ruim assim.

Eu vejo uma cor quando fecho os olhos.
Ela é verde.
Qual é sua cor preferida?.

Vamos destruir os dias e sorrir em cima da ruína,
eu quero ver tua boca pintada de vermelho
e seu corpo virado do avesso.

 

mar

Meditação sobre o passado e o nada

Sucede que,
toda vez que chove me ponho a pensar
e pensar é um choro sem lágrimas.

A tranquilidade das gotas caindo do céu,
me faz meditar.

Ruído de serenidade.

Qualquer trivialidade torna-se cativante nos dias de chuva.
A roupa no varal.
O mato assustado se mexendo com o toque do vento.
A antena parabólica.

Mas,
perco a razão ao pensar.
Entristece-me o pesar que ainda não conheci
e a todo momento sou atravessada,
sinto o fio da navalha.

Essa ferida fechada inaugura as dores que ainda não vivi.

Irei sentir.